domingo, 12 de julho de 2020

25ª Mini Jornada da Familia I 12/07/2020 - de 15h00m às 18h00m




O Tema central é: "Os desafios da família contemporânea".

Introdução: Família: revisitando conceitos - apresentação: Miriam Gonçalves

Tema 1: A função da família na vida do indivíduo - apresentação: Ângela Aranda

Tema 2: O ambiente familiar é o desenvolvedor da saúde física e
mental dos seres - Apresentação: Sílvia Lima


Tema 3: Transformações trazem desafios para a convivência familiar - como manter as boas relações no cenário cotidiano dos lares. - Apresentação: Dídima / Alba

Tema 4: O desafio de tolerar as diferenças e investir em afeto, tempo e atenção. - Apresentação: Lúcio Flávio

Tema Final: A importância dos valores morais, humanos, sociais e afetivos no processo de construção da família e suas transformações. - Apresentação: Ana Paula Ribeiro

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Idoso é preso por ajudar esposa a fazer eutanásia após 30 anos de luta contra esclerose múltipla

O espanhol Ángel Hernández atendeu ao desejo da mulher María José e a ajudou a tomar um medicamento letal. “Quero o final o quanto antes”, dizia ela em outubro passado a este jornal
EMILIO DE BENITO CAÑIZARES | CECILIA JAN
Madri - Ángel Hernández e María José Carrasco estavam decididos. No dia em que ela assim quisesse, ele a ajudaria a tirar a própria vida. Carrasco sofria de esclerose múltipla havia 30 anos. Em outubro passado, quando o casal recebeu o EL PAÍS no seu apartamento de Madri, manifestou, com a voz gutural de quem está à beira da asfixia, a única causa pela qual ela ainda não havia dado esse passo: “Ele não tem medo, mas eu sim”. Referia-se ao que podia acontecer com seu marido se a ajudasse. Ninguém sabe o que ocorreu naquela casa nestes últimos seis meses, mas, na quarta-feira, Hernández lhe preparou a medicação definitiva. Ela tomou. Ele foi preso.
“Quero o final o quanto antes”, dizia Carrasco, de 61 anos, em outubro. Secretária judicial, tinha sido uma mulher ativa, inquieta. Mas já fazia anos que o piano que tocava havia emudecido, que os pincéis com os quais pintava se cegaram. Com os anos de doença e deterioração, chegaram os corrimões nos corredores, uma parede foi derrubada para tornar o quarto mais amplo. Sumiram as portas que dificultavam a passagem da cadeira de rodas. Todas, menos a do banheiro pequeno, usado por Hernández, de 69 anos. O grande já não tinha banheira, e sim um enorme box de chuveiro. Praticamente paralisada e com problemas de visão e audição, o televisor da sala havia crescido para que os dois pudessem assistir a filmes antigos, porque não gostavam dos que passavam na televisão.
A detenção de Hernández ocorreu nesta quarta-feira, quando os agentes se apresentaram numa casa de Moncloa Aravaca, um bairro de classe média-alta de Madri, depois de serem avisados por equipes de emergência médica que Hernández havia lhe relatado ter administrado uma substância destinada a provocar a morte da sua mulher. Ele será colocado à disposição da Justiça nesta sexta-feira.
Como fez Ramón Sampedro há 21 anos – num caso célebre que inspirou o filme espanhol Mar Adentro –, o casal gravou o processo em que ela toma a medicação letal. Mas desta vez não serviu, como na época do famoso escritor tetraplégico, para inocentar o cúmplice do suicídio assistido. No caso de Sampedro havia funcionado. Quando anos depois Ramona Maneiro acabou sendo julgada, foi absolvida porque seu crime estava prescrito. Porque a cooperação necessária para o suicídio é punida pela legislação espanhola, mas o fato de a vítima ser uma pessoa em estado muito grave e que pede para morrer é considerado atenuante. Segundo a associação Direito a Morrer Dignamente, com a qual Hernández entrou em contato após ajudar Carrasco a acabar com sua vida, este é o primeiro caso desse tipo conhecido na Espanha desde o de Sampedro. Hernández seria, segundo a associação, o primeiro detido por esse motivo.
O marido sabia dos riscos, mas estava disposto a corrê-los. Há mais de 20 anos, quando ainda trabalhava como técnico audiovisual na Assembleia legislativa da Comunidade de Madri, e ela já estava doente em casa, a encontrou agonizante após tentar se matar. Chamou o serviço de emergências e o impediu. Depois, ela lhe prometeu que não tentaria de novo.
Em outubro, quando conversaram com o EL PAÍS, tinham suas esperanças na lei de regulação da eutanásia, impulsionada pelo Partido Socialista Operário Espanhol (no Governo). Inquietos, mas bem informados, temiam que a precariedade do Governo de Pedro Sánchez atrapalhasse a tramitação. Tinham razão: o projeto de lei continua parado na Mesa do Congresso, submetida à prática dilatória dos partidos oposicionistas PP e Cidadãos, que prorrogam reiteradamente o prazo para emendas, evitando assim que o projeto chegue a ser debatido em plenário. María José Carrasco entrava totalmente nos pressupostos dessa norma: uma doença grave e irreversível, que produz enormes sofrimentos físicos e psíquicos.
A ONG Direito a Morrer Dignamente exigiu nesta quinta-feira que os “futuros deputados e deputadas [a serem eleitos no pleito espanhol de 28 de abril] regulem e despenalizem a eutanásia urgentemente”. “O ato de Ángel Hernández de ajudar na morte da sua mulher, a quem cuidou durante décadas, só pode ser entendido como um ato de amor que não deveria receber nenhuma recriminação penal”, disse a entidade em nota.
“Mais de 80% da população é favorável a despenalizar a eutanásia e o suicídio assistido. Entretanto, o artigo 143 do Código Penal continua punindo-as com penas da prisão”, salienta a associação, que qualifica como “inaceitável” que “numa sociedade democrática, apoiada no respeito à liberdade individual e a pluralidade”, seja crime “ajudar uma pessoa a dispor de sua vida livremente”. “Defender o direito à vida não justifica obrigar uma pessoa a viver uma vida deteriorada, com um sofrimento inadmissível e que já não deseja”, conclui.
Notícia publicada no El País, em 4 de abril de 2019.

Jorge Hessen* comenta

Muitos médicos revelam que eutanásia é prática habitual em UTIs do Brasil, e que apressar, sem dor ou sofrimento, a morte de um doente incurável é ato frequente e, muitas vezes, pouco discutido nas UTIs dos hospitais brasileiros. Apesar de a Associação de Medicina Intensiva Brasileira negar que a eutanásia seja frequente nas UTIs, existem aqueles que admitem razões mais práticas, como, por exemplo, a necessidade de vaga na UTI, para alguém com chances de sobrevivência, ou a pressão, na medicina privada, para diminuir custos.
Nos Conselhos Regionais de Medicina, a tendência é de aceitação da eutanásia, exceto em casos esparsos de desentendimentos entre familiares sobre a hora de cessar os tratamentos. Médicos e especialistas em bioética defendem, na verdade, um tipo específico de eutanásia, a ortotanásia, que seria o ato de retirar equipamentos ou medicações, de que se servem, para prolongar a vida de um doente terminal. Ao retirar esses suportes de vida, mantendo, apenas, a analgesia e tranquilizantes, espera-se que a natureza se encarregue da morte.
A eutanásia vem suscitando controvérsias nos meios jurídicos, lembrando, no entanto, que a nossa Constituição e o Direito Penal Brasileiro são bem claros: constitui assassínio comum. Nas hostes médicas, sob o ponto de vista da ética da medicina, a vida é considerada um dom sagrado e, portanto, é vedada, ao médico, a pretensão de ser juiz da vida ou da morte de alguém. A propósito, é importante deixar consignado que a Associação Mundial de Medicina, desde 1987, na Declaração de Madrid, considera a eutanásia como sendo um procedimento, eticamente, inadequado.
Não cabe ao homem, em circunstância alguma, ou sob qualquer pretexto, o direito de escolher e deliberar sobre a vida ou a morte de seu próximo, e a eutanásia, essa falsa piedade, atrapalha a terapêutica divina nos processos redentores da reabilitação. Nós, espíritas, sabemos que a agonia prolongada pode ter finalidade preciosa para a alma e a moléstia incurável pode ser, em verdade, um bem.
Nem sempre conhecemos as reflexões que o Espírito pode fazer nas convulsões da dor física e os tormentos que lhe podem ser poupados graças ao movimento de arrependimento. Dessa forma, entendamos e respeitemos a dor, como instrutora das almas e, sem vacilações ou indagações descabidas, amparemos quantos lhe experimentam a presença constrangedora e educativa, lembrando sempre que a nós compete, tão-somente, o dever de servir, porquanto a Justiça, em última instância, pertence a Deus, que distribui conosco o alívio e a aflição, a enfermidade, a vida e a morte, no momento oportuno.
O verdadeiro espírita cristão porta-se, sempre, em favor da manutenção da vida e com respeito aos desígnios de Deus, buscando não só minorar os sofrimentos do próximo - sem eutanásias/claro! -, mas, também, confiar na justiça e na bondade divina, até porque, nos Estatutos de Deus não há espaço para injustiças. Somos responsáveis pela situação em que o mundo se encontra.
* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (vinte e seis livros "eletrônicos" publicados). Jornalista e Articulista com vários artigos publicados

terça-feira, 20 de agosto de 2019

A teoria sobre a vida desenvolvida por um cientista chileno que impressionou até o Dalai Lama

Ana Pais (@_anapais)
BBC News Mundo

Afinal, o que é a vida?
Essa pergunta é tão antiga que parece estranho que alguém dos dias de hoje consiga uma resposta tão radicalmente inovadora a ponto de influenciar áreas do conhecimento tão díspares como a neurociência, a sociologia, a informática, a literatura e a filosofia.
O biólogo chileno Humberto Maturana conseguiu. Sua teoria, desenvolvida há quase 50 anos com seu ex-aluno e compatriota Francisco Varela, chama-se "autopoiesis" e influenciou muita gente.
"A pergunta básica que me fiz foi o que é estar vivo e o que é estar morto, o que precisa acontecer em sua interioridade para que eu, olhando de fora, possa decidir o que é um ser vivo", disse Maturana à BBC News Mundo, serviço da BBC em espanhol.
Sua teoria, publicada em uma série de trabalhos no início da década 1970, foi "revolucionária porque deu uma solução para uma pergunta que até então não tinha resposta", diz.
Não à toa, Maturana foi um dos 23 pesquisadores convidados pela Fundação Nobel para uma conferência há duas semanas, em Santiago do Chile.
Maturana foi ovacionado quando subiu ao palco. O neurocientista Anil Seth, com quem o chileno dividia o painel, agradeceu a oportunidade de estar perto do "lendário biólogo".
"Li suas obras pela primeira vez há mais de 20 anos, quando fazia doutorado na Universidade de Sussex, na Inglaterra, e me inspirei em seu trabalho desde aquela época, como muitos outros cientistas no mundo", disse Seth.
O trabalho de Maturana, afirmou, "é um maravilhoso exemplo do legado da ciência chilena".

Crie a si mesmo

A obra de Maturana se concentra em um termo que ele cunhou unindo duas palavras gregas: "auto" (para si mesmo) e "poiesis" (criação).
"Os seres vivos são sistemas autopoiéticos moleculares, ou seja, sistemas moleculares que se autoproduzem, e a realização dessa produção de si mesmo como sistemas moleculares constitui a vida", afirmou o biólogo.
Segundo sua teoria, todo ser vivo é um sistema fechado que está continuamente se transformando, recuperando-se e se mantendo igual quando necessita.
Uma alegoria mais simples para essa ideia seria a de uma ferida que se cura sozinha.
A prestigiada Enciclopédia Britânica, que lista a autopoiese como uma das seis principais definições científicas para a vida, explica assim a teoria dos chilenos: "Ao contrário das máquinas, cujas funções de controle são inseridas por projetistas humanos, os organismos governam a si próprios".
"Os seres vivos", acrescenta, "mantêm sua forma mediante o contínuo intercâmbio e fluxo de componentes químicos", que são criados pelo próprio corpo.
Além de uma definição para a vida, Maturana e Varela também explicam o que é a morte.
A autopoiesis, diz Maturana à BBC, "tem de ocorrer continuamente, porque quando ela para, nós morremos".

O cientista filósofo

"Antes, se você perguntasse a um biólogo o que é um ser vivo, ele não sabia o que responder", diz Maturana. No entanto, depois da teoria, "viver passou a ter uma explicação".
"É um fenômeno de uma dinâmica molecular que constitui entidades discretas que são os seres vivos", diz o biólogo, que também se define como filósofo.
De fato, as palavras de Maturana muitas vezes parecem mais uma reflexão intelectual sobre a vida do que uma definição científica e objetiva dela.
O eixo de sua obra aborda um tema tão amplo que falar com Maturana necessariamente implica exceder o estritamente científico e entrar em questões bastante filosóficas.
Sobre a educação, ele opina: "O fundamental na educação é a conduta dos adultos em relação às crianças, não somente no espaço relacional e material, mas também no psíquico". Ele também explica seu pensamento sobre a linguagem: "Não é um sistema de comunicação ou transmissão de informações, mas um sistema de coexistência na coordenação de desejos, sentimentos e ações".
Maturana também dá consultorias de recursos humanos e relações interpessoais para empresas e indivíduos por meio do Instituto de Formação Matríztica, que há algumas décadas ele fundou com a professora Ximena Dávila.
É justamente essa diversidade e combinação de saberes de Maturana que atraíram a simpatia do Dalai Lama.

'Você tem razão'

Há cinco anos, Maturana e a Ximena Dávila visitaram o Dalai Lama, líder religioso e político que vive na Índia, cuja extensa oposição à ocupação do Tibet por parte da China lhe rendeu o prêmio Nobel da Paz em 1989.
Em seu site, Dalai Lama descreve Maturana como um "cientista cuja santidade sempre cito, uma pessoa que disse preferir não se ater apenas ao seu campo de pesquisa porque atrapalha a objetividade".
Embora tenham conversado sobre temas variados como o funcionamento do cérebro, a linguagem e os sentimentos de plantas e animais, Maturana lembra de um diálogo particular sobre a vida.
"A conversa foi essencialmente sobre como vivemos, que tipo de vida estamos levando e como estamos atuando como seres humanos", contou. "Nesse sentido, foi uma conversa filosófica e também biológica".
Maturana detalhou: "Ele disse que havia aprendido comigo o tema do desprendimento, porque em algum momento havíamos conversados sobre isso".
"Com Ximena mostramos que, nas relações humanas, o fundamental é ouvir um ao outro, mas para isso temos que deixar o outro aparecer sem prejulgar preceitos, premissas ou exigências. Isso é desprendimento, segundo o Dalai Lama", explicou.
De acordo com o biólogo, o líder tibetano lhe disse: "Você tem razão". E, em caráter filosófico, ainda acrescentou: "A coisa central na coexistência é ouvir um ao outro para poder fazer as coisas juntos com respeito mútuo."
Notícia publicada na BBC Brasil, em 6 de março de 2019.

Sergio Rodrigues* comenta

Para nós, espíritas, a questão é tão clara e tão simples que se torna difícil entrar nesses meandros que a ciência material desenvolve para explicar a vida, complicando algo que é de uma simplicidade límpida. Enquanto não conhecerem e aceitarem a existência do ser imaterial imortal, não compreenderão que o que chamam de “seres vivos” são corpos constituídos de matéria e dotados de fluido vital, que servem para habitação de seres imateriais em trânsito para o aperfeiçoamento.
A matéria em questão, com todo respeito aos homens de ciência nela citados, traz obviedades e indagações que poderiam ser respondidas com muita facilidade, desde que conhecessem a nossa realidade existencial. Com ilações e o conhecimento tão somente do elemento material, perguntas como “o que é estar vivo e o que é estar morto” continuarão sem respostas e servindo tão somente para especulações que a nada levarão.
* Sergio Rodrigues é espírita e colaborador do Espiritismo.Net

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Vacinas: o que são, como são feitas e por que há quem duvide delas

Roland Hughes
Da BBC News
As vacinas salvaram dezenas de milhões de vidas no último século, mas mesmo assim especialistas de saúde de diversos países têm identificado uma tendência de "hesitação em vacinar" - em outras palavras, uma crescente recusa em aderir à imunização.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a questão tão preocupante que a listou como uma das dez maiores ameaças à saúde global em 2019.
Abaixo, uma breve história da vacina, entre descobertas e desconfianças.

Como a vacinação foi inventada?

Antes que as vacinas existissem, o mundo era um lugar bem mais perigoso, no qual milhões de pessoas morriam anualmente de doenças que hoje são evitáveis.
A China foi o primeiro país a descobrir uma forma rudimentar de vacinação, ainda no século 10º: a prática da "variolação" consistia em expor pessoas saudáveis a tecidos das feridas causadas pelas doenças para aumentar a imunidade dessa população.
Oito séculos mais tarde, o médico britânico Edward Jenner notou que mulheres que ordenhavam leite costumavam pegar varíola bovina de baixa gravidade, mas raramente contraíam a versão mais mortífera da varíola.
Na época, essa era uma doença infecciosa altamente contagiosa, que matava cerca de 30% das pessoas infectadas. Os sobreviventes costumavam ter sequelas graves, como a cegueira.
Em 1796, Jenner fez um experimento com um menino de oito anos chamado James Phipps: inseriu pus de uma ferida de varíola bovina no garoto, que rapidamente desenvolveu os sintomas.
Assim que James se recuperou da doença, Jenner infectou o garoto com o vírus mais mortal da varíola, mas sua saúde permaneceu intacta. A exposição à varíola bovina havia feito com que ele se tornasse imune.
Em 1798, os resultados foram publicados, e a palavra vacina - "vaccine", em inglês, originária de "vacca", que é vaca em latim - foi cunhada.

Quais foram os êxitos das vacinas?

No último século, a imunização ajudou a reduzir drasticamente o impacto de doenças.
Cerca de 2,6 milhões de pessoas morriam, a cada ano, de sarampo no mundo, até que a primeira vacina contra a doença fosse criada, nos anos 1960. A vacinação levou à redução de 80% nas mortes por sarampo entre 2000 e 2017 no planeta, segundo a OMS.
E não faz muito tempo que milhões de crianças corriam o risco real de morrerem ou sofrerem paralisia por conta da poliomielite. Hoje em dia, essa doença foi praticamente extinta.

Por que algumas pessoas recusam a vacinação?

A desconfiança quanto a vacinas existe há quase tanto tempo quanto as próprias vacinas modernas.
No passado, as suspeitas eram relacionadas à religião, à percepção de que as vacinas eram anti-higiênicas ou à sensação de restrição à liberdade de escolha.
No Brasil, por exemplo, a Revolta da Vacina de 1904, no Rio de Janeiro, se seguiu à campanha obrigatória de vacina contra a varíola, implementada pelo epidemiologista e sanitarista Oswaldo Cruz.
Antes disso, ainda no século 19, surgiram no Reino Unido as chamadas ligas antivacina, que pressionavam por medidas alternativas de controle de doenças, como o isolamento de pacientes.
Nos anos 1870, o movimento se espalhou aos EUA, após a visita do ativista britânico antivacina William Tebb.
Mais recentemente, o britânico que mais marcou a história do movimento antivacina é Andrew Wakefield.
Em 1998, em Londres, o médico publicou um estudo falsamente ligando o autismo e problemas gastrointestinais à vacina MMR (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola).
Em 2004, o Instituto de Medicina dos EUA concluiu que não havia provas de que o autismo tivesse relação com os componentes da vacina. No mesmo ano, descobriu-se que, antes da publicação de seu estudo, Wakefield havia feito um pedido de patente para uma vacina contra sarampo que concorreria com a MMR, algo que foi visto como um conflito de interesses.
Além disso, um assistente de Wakefield afirmou que, em seu estudo, o médico manipulou informações de crianças para forçar a ligação entre vacina e autismo. Em 2010, o Conselho Geral de Medicina do Reino Unido julgou Wakefield "inapto para o exercício da profissão", qualificando seu comportamento como "irresponsável", "antiético" e "enganoso". E a Lancet, periódico que havia tornado público seu estudo, se retratou da publicação, dizendo que suas conclusões eram "totalmente falsas".
Em meio a isso, as taxas de vacinação caíram em vários países após a publicação do estudo de Wakefield. Só em 2004, 100 mil crianças a menos receberam a vacina MMR no Reino Unido - o que levaria a um aumento de casos de sarampo.
O tema ganha, também, contornos políticos.
O ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, se alinhou a grupos antivacina, enquanto o presidente americano, Donald Trump, traçou - sem oferecer provas - elos entre vacinação e autismo. Recentemente, porém, ele instou os pais americanos a vacinarem seus filhos.
Um estudo internacional sobre comportamento perante vacinas identificou que, embora a confiança geral na imunização fosse positiva, está em seu nível mais baixo na Europa, particularmente na França.

Quais são os riscos das vacinas?

Quando uma alta proporção da população está vacinada, o resultado é a prevenção da disseminação da doença - algo que, por sua vez, dá proteção às pessoas que não desenvolveram imunidade ou que não podem ser vacinadas.
Isso é chamado de imunidade de rebanho. Quando ela deixa de existir, surge um risco de contaminação à população como um todo.
A proporção de uma população que precisa ser vacinada para que seja mantida a imunidade de rebanho varia conforme a doença, mas, para sarampo, é de 95%. Para a polio, que é menos contagiosa, é de 80%.
No ano passado, em uma comunidade ultraortodoxa do Brooklyn, em Nova York, foram distribuídos panfletos com a falsa acusação de que há conexão entre vacinas e autismo. O resultado foi que, nessa mesma comunidade, houve um surto de sarampo - um dos maiores registrados nos EUA nas últimas décadas.
Na Inglaterra, cientistas alertam que muitas pessoas estão sendo enganadas por informações mentirosas sobre vacinas sendo propagadas nas redes sociais, enquanto pesquisadores americanos descobriram que bots russos estavam sendo usados para causar discórdia online, pelo intermédio de falsos posts sobre imunização.
A proporção de crianças do mundo que recebe as vacinas recomendadas permanece inalterada, em torno de 85% nos últimos anos, segundo a OMS.
A organização atesta que as vacinas continuam a prevenir entre 2 milhões e 3 milhões de mortes a cada ano.
Os maiores desafios à vacinação são os países com histórico de conflitos recentes e sistemas de saúde frágeis, como Afeganistão, Angola e República Democrática do Congo, locais onde as taxas de imunização estão entre as mais baixas do mundo.
Mas a OMS também identificou complacência como uma questão-chave para melhorar os índices de vacinação em países mais estruturados (incluindo o Brasil) e desenvolvidos - para resumir, as pessoas simplesmente deixam de vacinar porque se esquecem do mal que algumas doenças podem causar.
Notícia publicada na BBC Brasil, em 22 de junho de 2019.

Breno Henrique de Sousa* comenta

Ciência, Pseudociência e Espiritualidade
A pseudociência é frequentemente definida como uma informação que se diz científica sem na verdade ser baseada nos procedimentos adotados pela ciência. Normalmente, apoiam-se em teorias da conspiração, correntes de internet, argumentos falaciosos e estudos obscuros. É muito importante nos dias atuais saber reconhecer uma pseudociência, pois, algumas ideias como as que pregam o não uso de vacinas são arriscadas para a saúde humana ou simplesmente ridículas como a de que a Terra é plana.
Esse fenômeno acontece porque algumas teorias buscam o respaldo da ciência para obter credibilidade, dando uma cara de coisa séria ao absurdo e infundado. Porém, o assunto é menos simples do que parece. Primeiro porque não existe apenas uma definição sobre o que é ciência. Os mais ortodoxos consideram ciência apenas o que é materialmente comprovado, de preferência com mensuração matemática precisa e absoluta. Para esses, até mesmo a psicologia, a economia, a antropologia e a sociologia não são ciências. Já vi muita gente com pensamento reducionista apontar esses ramos do conhecimento como pseudocientíficos.
Qualquer um que estudar um pouco as concepções mais recentes sobre a ciência verá que ela se baseia em um sistema de verificação que pode ser refutado por seus pares, ou seja, afirmações que não podem ser testadas ou desmentidas, não são científicas. Essa, para mim, é uma concepção mais coerente. De qualquer forma, é preciso ter cuidado, pois se não existe uma concepção única sobre o que é ciência, tão pouco é possível definir precisamente o que é pseudociência, a não ser sob um determinado viés ideológico.
Não se pode ignorar também o fato de que não existe “uma ciência oficial”, a ciência é uma rede de colaboração. Algumas “verdades” científicas desfrutam de alta credibilidade, outras, nem tanto. Algumas afirmações estão no campo das hipóteses científicas, ou seja, especulações feitas, porém com embasamento científico, mas que ainda não foi possível verificá-las. Nem toda afirmação pode ser chamada de hipótese científica, é preciso que ela se baseie em teorias e resultados paralelos que permitam elaborar uma hipótese plausível para explicar um fenômeno.
Também é importante saber que os cientistas, enquanto seres humanos, são influenciáveis por diferentes sistemas de crenças e o sistema de crenças predominante no meio acadêmico é o materialismo. Os materialistas gostam de chamar a si mesmos de céticos, mas eles são apenas crentes de um sistema. O verdadeiro ceticismo é aberto à verificação de qualquer hipótese, seja ela materialista ou não.
É verdade que existe muita pseudociência nos meios espiritualistas, mas é preciso separar o joio do trigo e dizer que também existe boa ciência. Muitos estudos feitos por cientistas ateus, com revisão dos pares, em periódicos gabaritados, trazem evidências testáveis e refutáveis de afirmações feitas por diversas religiões, como, por exemplo, dos efeitos benéficos das orações sobre a saúde, tendo o cuidado de descartar o efeito placebo.
Temos também sistemas de crença muito complexos e profundos que não são baseados em argumentos de autoridade, teorias da conspiração, ou verdades escondidas que ninguém mais pode acessar. Muitos deles, como o Espiritismo, utilizam da observação sistemática dos fatos, sem partir de premissas, estudam os fenômenos espirituais, comparam, testam e elaboram hipóteses que podem, por sua vez, ser testadas e refutadas por qualquer um, em qualquer época, sem governos secretos escondendo a verdade ou revelações maravilhosas que mais ninguém sabe.
A pseudociência é um risco não apenas para a ciência, mas também para a espiritualidade que fica ofuscada pela superstição fazendo parecer que tudo quanto se refere à espiritualidade humana é simplório e ridículo.
Alguns sistemas de crença também não requisitam para si a qualidade de serem científicos. Alguns possuem conhecimentos tradicionais que são utilizados milenarmente, por exemplo, o uso de plantas medicinais pelas populações indígenas. Nesse caso a ciência pode até verificar e testar, mas os índios não usaram a metodologia científica, o que não quer dizer que a coisa não funcione. Nem tudo o que é científico é verdadeiro, basta olhar a história da ciência e comprovar que ela frequentemente se equivoca mesmo quando segue rigorosamente seus métodos, e nem tudo que não é científico é falso, ou seja, outros sistemas de conhecimentos diferentes da ciência podem também atingir verdades profundas.
Algumas crenças são complexos sistemas simbólicos que trabalham a subjetividade do indivíduo e não dizem muito respeito a verificação material dos fatos ou comprovação estatística, mas eles são muito eficientes na mudança de perspectivas do indivíduo e na ressignificação de suas experiências emocionais e psíquicas.
Então, temos de fato um conflito perigoso entre ciência e pseudociência, mas não se enganem, existe também no meio científico estudos que evidenciam princípios defendidos pelas religiões; temos religiões com sistemas complexos não científicos (o quê não as torna inferiores) e as que, estando livres das amarras do materialismo, fazem uso sério da metodologia científica.
Existe um interesse, ou ignorância mesmo, por parte dos materialistas, que querem jogar tudo o que não for ciência materialista dentro do balaio de gatos das pseudociências. Inclusive, quase tudo que se escreve sobre pseudociências é escrito por crentes no materialismo que não enxergam, ou não reconhecem, essa distinção. Muitos textos na Internet ensinam a reconhecer as pseudociências, mas sem os ajustes finos para perceber essas sutilezas.
Reconheço que para o iniciante não é fácil distinguir essas coisas, mas fica o alerta. Quem tiver interesse procure ler sobre filosofia da ciência e no campo da espiritualidade comece pelas grandes obras clássicas espiritualistas ocidentais e orientais e logo será fácil perceber essas nuances.
O Espiritismo, por sua vez, oferece amplos recursos para conciliar de forma séria ciência e espiritualidade. Foi Allan Kardec quem estabeleceu que o Espiritismo deve ser um sistema aberto para autocorreção e evolução, assim como nas ciências. Ele também nos disse que se a ciência provasse que o Espiritismo estava enganado em algum ponto, deveríamos seguir as evidências científicas. Os tratamentos espirituais, em nenhuma hipótese, dispensam os tratamentos médicos convencionais, na verdade, eles se complementam na busca da nossa saúde física e espiritual.
* Breno Henrique de Sousa é paraibano, professor da Universidade Federal da Paraíba nas áreas de Ciências Agrárias e Meio Ambiente. Está no movimento Espírita desde 1994, sendo articulista e expositor. Atualmente faz parte da Federação Espírita Paraibana e atua em diversas instituições na sua região