segunda-feira, 17 de abril de 2017
A lenda da Baleia Azul – ou como uma notícia falsa traduz um perigo real
"Era uma vez uma Baleia Azul. Que segundo o colega Daniel Barros, do Estadão, teria o poder de arrastar jovens no mundo inteiro para um jogo letal em que, após sucessivas provas impostas pelos moderadores, ordenava aos participantes que se matassem. Segundo ele, trata-se de mais uma lenda da internet. Será? Muita gente me pediu que denunciasse aqui o tal jogo virtual, que chegou até a inspirar uma reportagem na TV. Melhor checar antes do que se trata. Leia e tire suas próprias conclusões."
A lenda da Baleia Azul – ou como uma notícia falsa traduz um perigo real
Por Daniel Martins de Barros
A notícia da onda de suicídios causados pelo jogo Baleia Azul é falsa. Mas serve de alerta.
“Era uma vez um povo sedento informação. As pessoas eram curiosas e adoravam falar umas sobre as outras. Certo dia surgiu um ser muito poderoso, que sabia de todas as coisas, estava em todos os lugares, e dava todas as respostas. A única coisa que ele pedia em troca era dedicação total. A empolgação foi geral – todo mundo se tornou discípulo e seguidor, continuamente entregando ofertas de tempo e atenção. Até que um dia chegou a mensagem terrível: o tempo gasto com o oráculo seria descontado da vida das crianças. As pessoas entraram em pânico, mas era tarde demais. Pois enquanto os adultos deixavam de dar atenção aos filhos, dedicando-se ao oráculo, as próprias crianças e adolescentes se haviam se tornado devotos, e agora voluntariamente se entregariam em sacrifício. A única solução foi os pais voltarem a dedicar mais tempo para seus filhos, livrando-os de tão trágico destino.”
Chamemos essa historinha de a lenda da Baleia Azul. Esse é nome de um jogo em uma rede social russa que causou pânico global ao se noticiar que ele estava levando os jovens ao suicídio. Trata-se de um boato, surgido pela interpretação distorcida de uma notícia antiga, de um ano atrás, que voltou às manchetes depois de repercutir na imprensa inglesa. O jogo consiste numa série de 50 tarefas, progressivamente mais difíceis, culminando com o desafio do suicídio – e as manchetes diziam que centenas de jovens já teriam chegado ao fim e se matado. A verdade, no entanto, é que nenhum caso foi ligado de fato ao jogo. O site de verificação de boatos Snopes.com trilhou o caminho da história de trás para frente, chegando à notícia original, publicada pelo periódico russo Novaya Gazeta, e mostrou como ela era recheada de inferências e suposições, sem um fato sequer apurado realmente. A equipe da Radio Free Europe, organização dedicada a levar informações a regiões com pouca liberdade de expressão (como leste europeu), apurou mais profundamente o caso, fazendo-se passar por um adolescente que queria jogar o baleia azul. Eles chegaram a estabelecer um diálogo com moderadores do jogo, que confirmaram não ser possível desistir depois de começar, mas desapareceram em seguida. Conseguiram ainda contato com vários jovens que haviam se engajado na brincadeira macabra; a maioria entrara no jogo por curiosidade, e todos também perderam contato com os moderadores em pouco tempo.
Por que então, mesmo sendo um boato, essa história exagerada e pouco crível fez tanto barulho?
Em primeiro lugar, porque ninguém sabe exatamente a razão de o suicídio entre jovens crescer no mundo todo, Brasil inclusive. Diante da angustiante ausência de explicações qualquer motivo que tenha ares de resposta encontra terreno fértil para se multiplicar. Além disso a notícia segue uma estrutura básica de várias história clássicas, como tentei mostrar nesse arremedo de fábula acima. Muitos são os relatos de um poder dado à humanidade que é mal utilizado pelos homens, trazendo grandes prejuízos (ideia que vai de Prometeu a Frankenstein, sem falar na serpente de Adão e Eva). E não são poucas as narrativas em que o preço cobrado é a vida dos filhos (desde a morte dos primogênitos, no livro do Êxodo até o massacre dos meninos no evangelho de Mateus, passando por Rapunzel, Rumpelstiltskin, O Flautista de Hamelin). Se essa ideia se repete tanto, provavelmente toca em medos fundamentais que carregamos, seja de não sabermos lidar com nosso potencial e nossa autonomia, seja de colocarmos interesses pessoais acima das necessidades dos filhos.
E não é isso mesmo que enfrentamos nessa era de tanta internet, tantas redes sociais, tanto tempo on-line? Essa tecnologia é tão nova e poderosa que ainda não sabemos bem como lidar com ela. Mas todos sabemos que estamos dando atenção demais à tecnologia, em prejuízo do tempo que deveríamos dedicar a quem está perto. Daí o sucesso da notícia sobre o jogo. Ela é um exemplo perfeito – e totalmente contemporâneo – do que em inglês se chama cautionary tale, ou “conto de cautela”, nas quais um perigo é apresentado, conta-se a história de alguém que desprezou o perigo e mostram-se as terríveis consequências de sua atitude irresponsável.
Moral da história: a notícia da baleia azul pode ser exagerada, mas os perigos que ela traduz são tão presentes que todo mundo acreditou. Na dúvida, então, não custa dar ouvidos ao alerta que ela fez.
AT >> A recomendação da educadora Andréa Ramal no G1 http://g1.globo.com/.../entenda-o-jogo-da-baleia-azul-e...
Entenda o 'Jogo da Baleia Azul' e os riscos envolvidos
"13 reasons why" - por André Trigueiro
Foram tantas pessoas - próximas ou desconhecidas - que fizeram contato pelo face ou por e-mail pedindo que eu escrevesse algo sobre a série da Netflix "13 reaso...ns why" ("Os 13 porquês", baseado no best-seller homônimo lançado em 2007 sobre o suicídio de uma adolescente nos Estados Unidos) que reservei o dia de hoje para uma maratona cansativa assistindo aos filmes na telinha do computador.
Antes de compartilhar minha opinião sobre a série, segue um breve resumo do enredo (se você tem aversão a spoilers, pule os próximos dois parágrafos).
A série começa com um fato consumado: o suicídio da jovem Hannah Baker, e o cuidado que ela teve - antes de se matar - de registrar em 13 diferentes gravações as situações e os personagens que teriam de alguma forma contribuído para a decisão de se matar.
Bullying, drogas, depressão, assédio, homofobia, violência sexual e outros problemas recorrentes na escola onde Hanna estuda - e em tantas outras escolas pelo mundo - tornam a vida da protagonista uma experiência cada vez mais angustiante. Castigada por sucessivas decepções e frustrações, sem ter com quem compartilhar sua dor, ela se percebe subitamente sem saída. É quando resolve se matar.
Sou contra qualquer censura e não tenho competência para fazer crítica de cinema. Mas desde 1999 venho estudando o fenômeno do suicídio e um resumo desse trabalho encontra-se disponível no livro "Viver é a melhor opção: a prevenção do suicídio no Brasil e no mundo" (Ed. Correio Fraterno, 2015).
É assustadora a forma como a série da Netflix atropela várias recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre como se deve abordar o problema do suicídio em obras de ficção. A ótima ideia de expor o problema do suicídio entre jovens - um tema relevante que deveria inspirar mais roteiristas - ignorou alguns cuidados básicos indicados pelos profissionais de saúde especializados no assunto ("suicidólogos").
Poucas vezes no cinema uma cena de suicídio foi mostrada com tamanho realismo e brutalidade. É uma aula mórbida sobre como promover o autoextermínio numa banheira. Violência desnecessária, tragicamente didática e infortunadamente sugestiva.
Antevendo as críticas, a Netflix abre o capítulo com um texto onde se lê a seguinte mensagem: "este episódio contém cenas que alguns espectadores podem considerar perturbadoras e/ou podem não ser adequadas para públicos mais jovens". Será que funciona como álibi? Não para a OMS.
Após encerrar a maioria das gravações - em que aponta nominalmente os "culpados" por seu mal estar existencial - Hannah se sente melhor por ter "despejado tudo". Diz ela no filme: "senti que talvez pudesse vencer isso. Eu decidi dar mais uma chance à vida. Desta vez eu ia pedir ajuda. Por que sei que não podia fazer isso sozinha". É quando ela procura o profissional que oferece os serviços de "conselheiro" na escola onde estuda. Cria-se a expectativa de que finalmente Hannah terá a ajuda e o apoio necessários para sair do buraco em que se encontra.
A conversa com o conselheiro da escola é difícil, dolorida, e decepcionante. Hannah hesita em seguir em frente - principalmente quando o assunto é o estupro sofrido por um colega de escola - e deixa abruptamente a sala onde o atendimento acontecia, apesar dos apelos feitos pelo conselheiro para que continuasse a conversa. Ela fecha a porta, pára do lado de fora e fica na expectativa de que o profissional saia da sala e a procure. Mas isso não acontece. É a derradeira frustração antes de cometer suicídio. Não sem antes deixar gravado o relato sobre seu desapontamento com o profissional da escola que não agiu exatamente como ela esperava.
A série é inspiradora - no mau sentido - para que jovens depressivos e angustiados não percebam outra saída que não a própria morte. Pior: sugere que suicidas em potencial registrem em gravações ou anotações os "culpados" pelos seus infortúnios, e punam através do suicídio aqueles que lhe faltaram quando mais precisavam. O suicídio como pretexto para se vingar de alguém, aliás, é um comportamento patológico. Mas a personagem principal da série não parece alguém que possua algum distúrbio. Pelo contrário. O relato sereno e lúcido de Hannah nas gravações sugere que o suicídio possa ser a resposta esperada, previsível, diante de tantas desilusões e sofrimentos. Será? Segundo a Organização Mundial de Saúde, em pelo menos 90% dos casos, os suicídios estão relacionados a patologias de ordem mental, diagnosticáveis e tratáveis, principalmente a depressão.
Além do "Efeito Werther" (a constatação de que o suicídio é inspirador para pessoas fragilizadas psíquica ou emocionalmente) a série da Netflix promove também a vitimização do suicida, justificando o autoextermínio de Hannah por tudo o que lhe aconteceu. Como se diante de tantas experiências dolorosas, não houvesse mesmo outra saída. Como se os outros - quando não fazem exatamente aquilo que esperamos deles - pudessem ser responsabilizados pelo suicídio de alguém.
Num mundo onde o suicídio é caso de saúde pública, e o autoextermínio de jovens vem aumentando de forma preocupante, espera-se que outras séries possam ser mais cuidadosas e responsáveis na abordagem do tema.
André Trigueiro
Trocando ideia - 6 motivos para não ver '13 Reasons Why'
6 motivos para não ver '13 Reasons Why'
Precisamos
mostrar que a vida merece ser vivida e não que a morte é a solução para os
problemas.
Passando o hype
e tendo visto a primeira temporada inteira de 13 Reasons Why (ou
'Os 13 Porquês'), eu posso dizer com todas as palavras: não pretendo recomendar
que alguém veja essa série.
Eu sei muito bem
o que escrevi logo que comecei os primeiros episódios e mantenho a minha posição - logo mais
explico o porquê -, mas depois de ver tudo com calma, ler muito a respeito e buscar
opiniões e visões de pessoas diferentes ao longo da semana, cheguei à conclusão
de que ninguém merece assistir 13 Reasons Why.
Por isso,
elenquei motivos para você deixar a série de lado e buscar outra coisa para ver
(neste link você encontra
algumas sugestões). E, sim, eu sei que falar para não ver uma coisa pode ter um
efeito contrário, mas posso apenas torcer que os pontos a seguir ajudem você a
entender o porquê.
Atenção, este post pode conter spoilers!
1. Ela vai
contra as recomendações da OMS
A Organização
Mundial de Saúde lançou em 2000 uma lista de recomendações para meios de mídia
falarem e retratarem casos de suicídio. Desde então, existem palestras e workshops locais
e de escala global feitos para atualizar essas diretrizes. A OMS faz três
recomendações principais que são totalmente desconsideradas pela série: 1)
evitar romantizar o ato do suicídio; 2) evitar retratar o suicídio como uma
resposta aceitável às dificuldades; 3) evitar incluir o método, local ou
detalhes da pessoa que faleceu. Essa é uma maneira não só de respeitar quem
morreu e sua família, como também de retratar o assunto de uma maneira que seja
direta e objetiva e que foque mais em ações de prevenção e conscientização.
Quem viu os
últimos episódios de 13 Reasons Why sabe que essa última
recomendação foi totalmente esquecida e as cenas são praticamente um tutorial
mórbido e desesperado de como tirar a própria vida. Isso nos leva ao segundo
ponto.
2. Ele ignora o
'Efeito Werther'
O nome pode
parecer complexo, mas a ideia, em si, não é. Existe na psicanálise um termo
chamado Efeito Werther, que identifica o quanto a constatação do suicídio é
inspiradora para pessoas que sofrem de algum nível de fragilidade emocional ou
psíquica. Isso significa que casos de suicídio - principalmente os famosos
(pense em Kurt Cobain) - podem influenciar outras pessoas a seguir o mesmo
caminho, como em um efeito cascata. Dando o local e a forma como Hannah Baker
tirou a própria vida em 13 Reasons Why, a série se torna um
prato cheio para inspirar - negativamente, claro - outros jovens a fazerem o
mesmo.
O mais
interessante é que esse efeito não ganhou o seu nome por causa de algum
pesquisador famoso: ele é uma referência ao livro Os sofrimentos do Jovem
Werther, de Johann Wolfgang Goethe, que desencadeou uma série de
suicídios na Alemanha quando do seu lançamento. Ou seja, uma obra de ficção
altamente gráfica sobre o assunto (a cena de suicídio do personagem principal é
considerada uma das mais comoventes da literatura) que inspirou muitas pessoas
a buscarem uma mesma saída para o que sentiam.
3. A série é
sobre vingança
Esqueça a morte
de Hannah; esta não é uma série sobre suicídio, mas sobre vingança. As 13 fitas
gravadas pela personagem são uma forma de atribuir culpa a outras pessoas e
conseguir algum tipo de retribuição por tudo o que aconteceu com ela no
passado. Tanto que existe uma cópia com Tony, e ele mesmo diz que existirão
consequências se os pedidos da jovem não forem seguidos à risca. Sim, crimes
foram cometidos (Bryce e Tyler, estamos falando de vocês), mas isso não isenta
a sede de vingança da personagem principal, que assume apenas o papel de
vítima.
4. Ela é repleta
de gatilhos
Para uma pessoa
mentalmente saudável, a série pode, sim, ser uma forma de fazê-la pensar mais
sobre um assunto que ainda é um tabu tão grande. Para as demais, porém, pode
ser um verdadeiro pesadelo. O primeiro aviso de que a série tem cenas que podem
ser gatilhos aparece apenas no episódio 9 - mas mesmo antes disso a vibe pesada
e a forma como a trama é conduzida já são motivos suficientes para uma pessoa
com depressão entrar em crise.
5. Ela vê o
suicídio como 'opção'
O suicídio é um
ato complexo e que envolve muitas premissas. Porém, o principal é que existe
uma questão de desequilíbrio mental, em que a pessoa se vê presa em tudo aquilo
que a cerca e não consegue encontrar, sozinha, uma saída para o que sente e,
principalmente, para o que pensa. 13 Reasons Why não toca no assunto
doença mental na adolescência - você vê na série a evolução do estado de
espírito de Hannah, mas de maneira alguma aborda, em qualquer momento, como o
estado mental de alguém é o principal causador de um suicídio. Ao apontar dedos
e tentar encontrar um culpado (quase como se Hannah tivesse sido
'assassinada'), a série omite esse fator, um tabu tão grande quanto o suicídio
e algo decisivo nesses casos. (Se você quiser saber mais sobre como identificar
um comportamento suicida, pode clicar aqui para ler sobre)
6.13
Reasons Why não oferece uma saída
Sim, é um fato
que uma série de ações externas podem piorar uma situação interna que já está
ruim. Porém, a série não apresenta uma saída ou uma tentativa bem-sucedida de
pedido de ajuda, não dá um exemplo de casos que foram solucionados e
revertidos. Quando Hannah decide dar uma 'última chance para a vida' e buscar o
conselheiro da escolha, ela deixa uma ideia de que pedir ajuda não vai
funcionar - porque, como ela mesma diz, 'ninguém se importou o suficiente'.
Para uma pessoa que já se sente sozinha, confusa e sofrendo, ver uma cena
dessas pode fazê-la acreditar que é assim que as coisas funcionam e que não
existe uma forma de sair desse loop.
Outro ponto que
vale atenção: apesar de fazer toda uma ação em parceria como CVV, o Centro de
Valorização da Vida, não existe, em nenhum dos episódios, o telefone da
organização (141) ou o site oficial para que as pessoas busquem ajuda, caso precisem.
No mínimo, isso pode ser considerado um desserviço. Se a pessoa já acredita que
ninguém pode ajudá-la, não colocar nenhum tipo de informação de contato para
lugares que podem ajudá-la é um erro enorme.
Por mais que a
minha opinião pessoal seja de não recomendar essa série para ninguém, é um fato
que as pessoas são livres para escolherem ou não assistir 13
Reasons Why. Se você decidir ver a série e conversar sobre ela com
alguém, tenha em mente, no mínimo, que a série pode não ser benéfica para
algumas pessoas e converse sobre o assunto com cautela.
Falar sobre
suicídio, a segunda maior causa de morte entre os jovens, é importante, sim. O
tema precisa deixar de ser um tabu. Também é louvável a ideia da série de fazer
o espectador pensar sobre as próprias ações e como ele se porta na frente dos
outros, o nível de interesse que ele tem pelo próximo. Isso continua verdade:
só o relacionamento cura e isso não vai deixar de ser assim.
De qualquer
maneira, era importante dar o outro lado - o que parece bem maior que os pontos
positivos da série - para que o assunto seja tratado com a delicadeza e
responsabilidade que merece. Precisamos
mostrar que a vida merece ser vivida e não que a morte é a solução para os
problemas. O bullying pode, sim, ser uma causa para o suicídio,
mas isso não significa que todo caso de bullying acaba em suicídio. Precisamos
parar de simplificar um assunto tão sério com a desculpa de que a técnica de
chocar o espectador vai resolver uma questão tão mais complexa do que a gente
imagina.
*Este
artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias
ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem
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