quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Artigo CELD: Convivendo com os Diferentes

Convivendo com os Diferentes

Cláudia Galves
Diferentes! Somos todos diferentes, uns dos outros!
Desde pequeninos, muitos de nós ouvimos o dito popular: “Até os dedos da mão são irmãos, mas não são iguais”. Os filhos são diferentes uns dos outros, apesar de terem o mesmo pai, a mesma mãe e a educação no mesmo ambiente. Conviver com as diferenças é algo constante em nossas vidas, mas ficamos impacientes com os diferentes de nós e dizemos: “– Não é possível que você pense desse jeito”!; “– Não acredito que ainda esteja fazendo isso!”; “– Olha seus sentimentos extravagantes, como me aborrecem”! Muitas vezes, isso gera conflitos e desentendimentos sérios, não é verdade? Quantas vezes achamos que a nossa conduta é a melhor, a mais correta? E até nos incomodamos com os que não concordam ou não fazem o que desejamos exatamente do nosso jeito!
É certo que o diferente, algumas vezes, pode até parecer “esquisito”, mas é importante lembrar que tudo depende do referencial. Por que não pensamos que, muitas vezes, aquilo que parece tão diferente é bem “igualzinho”, visto de um outro ângulo? Quantas vezes, quando ultrapassamos as barreiras do preconceito, descobrimos que aquele que parecia o nosso oposto, traz em seu coração, em seu íntimo, alegrias ou aflições tão conhecidas e tão sentidas por nós? Quantas vezes a sua diferença encobre uma dor que nos é muito familiar?
Se começarmos a refletir sobre esse tema, vamos descobrindo que nós mesmos somos diferentes a cada momento, até porque, como diz o ditado antigo que expressa a ideia de Heráclito de Éfeso: “O rio que passa por aqui não é o mesmo rio que passa por ali”. E assim, nós também temos o pensamento enriquecido a cada instante com dados informativos, seja pela experiência e pela observação que nos levam a reflexões profundas de nós mesmos e dos outros; seja, até mesmo, quando lemos ou estudamos sobre algum assunto. E com novos dados, a cada instante nos apresentamos com um “eu” tão diferente que até parecemos contraditórios no pensar, no falar e no agir. É isso mesmo, estamos constantemente em transformação! Mas, apesar disso, nos aceitamos. Então, por que não aceitamos quando essa diferença se trata do outro?
Jesus nos ensinou que os seus discípulos seriam reconhecidos por muito se amarem e nos lembrou de que o maior mandamento é “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” (Mateus, XXII: 34 a 40). Ainda nos parece difícil compreender que, para desenvolver o amor a Deus, seja necessário chegar ao próximo primeiro. Como poderemos utilizar essa ponte se estivermos distantes dele? É preciso que nos coloquemos no lugar do outro, percebendo suas necessidades e vendo-o como um igual, alguém exatamente como nós, que tem o seu jeito, limites, gostos, opiniões, necessidades e, também, os seus desenganos. Mas, somos mesmo iguais?

SOMOS IGUAIS! A LEI DE DEUS GARANTE ESSA IGUALDADE
Apesar de toda diferença e esquisitice do outro – a nosso ver, é claro –, constatamos a nossa igualdade com as palavras dos benfeitores espirituais nas Obras Básicas, seja na criação: “Deus criou todos os espíritos simples e ignorantes” (O Livro dos Espíritos, q. 115 e 133); seja na dor: Deus criou todos os homens iguais para a dor; pequenos ou grandes, ignorantes ou instruídos, sofrem pelas mesmas causas, para que cada um julgue judiciosamente o mal que pode fazer” (O Evangelho Segundo o Espiritismo XVII, item 8).
E, ainda, quando estudamos a lei de Igualdade, vimos que ela coloca todo espírito em condições idênticas em relação a Deus, nosso Pai, e garante uma Justiça Divina cheia de bondade e de misericórdia, que respeita o estágio evolutivo de cada um, que se direciona para um objetivo comum, que é a perfeição e a felicidade que tanto buscamos.
Mas, se somos iguais, por que nos apresentamos diferentes? Os amigos espirituais nos esclarecem: “Deus criou iguais todos os espíritos, mas cada um deles vive há mais ou menos tempo e, por conseguinte, possui mais ou menos aquisições; a diferença está no grau de sua experiência e da vontade que lhes constitui o livre-arbítrio: daí, uns se aperfeiçoarem mais rapidamente, o que lhes dá aptidões diversas. (…) o que um não faz, o outro o faz; é assim que cada um tem seu papel útil. (…).” (O Livro dos Espíritos, q. 804).
Diante desta resposta dos espíritos benfeitores, percebemos que a diferença está no livre-arbítrio de cada um e no esforço que faz para entender que a solidariedade acelera o progresso, conduzindo todos mais depressa ao objetivo de Deus. E isso já se expressa no mundo material, quando se observa a frequência das palavras: interagir, compartilhar e ter parceria. Mas, então, o que dificulta tanto essa convivência, gerando conflitos constantes, tornando-se, muitas vezes, um desafio e não uma escolha consciente e amadurecida?

CONVIVER É VIVER COM AS DIFERENÇAS
Há uma tendência do ser humano em se agrupar e estabelecer vínculos, na maioria das vezes, com os iguais e isso faz parte da natureza. Há uma história em que, na era do gelo, os animais morriam de frio até, instintivamente, se agruparem para não morrerem congelados. Porém, não havia possibilidade com os porcos-espinhos, pois quando se aproximavam, feriam uns aos outros. Mas, havia uma escolha: ou aprendiam a viver com os ferimentos causados por essa aproximação ou ficavam sem ferimentos e morriam de frio. Para sobreviverem, aprenderam a conviver com as feridas que a relação com os outros pode causar.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, um espírito protetor nos ensina: “Até mesmo as impaciências, causadas por contrariedades, muitas vezes pueris, dependem da importância que atribuis à personalidade, diante da qual julgais que todos se devem curvar” (cap. IX, intem 9). Aqui nós temos a chave da convivência, pois, com a excessiva valorização pessoal, desejamos o controle sobre tudo que nos rodeia, priorizando os próprios interesses, e aí aparecem os “espinhos” que ferem qualquer relação.
E para completar este quadro, quando se trata de diferenças, sempre aparece a discriminação: “se não pensa, sente ou age como a maioria, não tem valor”. Quando alguém se apresenta diferente de “todo mundo”, a tendência é ser fortemente criticado e denegrido pelos demais. É comum observarmos isso na moda, com as novidades que surgem no mercado, as gírias, músicas, danças, e muito mais! Tudo gera um esforço constante para quem quer “estar de acordo com a maioria” e não ser discriminado. Mas isso tem um preço!
Santo Agostinho nos revela que o nosso mundo, a Terra, “é um dos tipos de mundos expiatórios, mas que também serve de lugar de exilo aos espíritos rebeldes à Lei de Deus” (Cap. III, item 15). Se a lei é de igualdade e nos sentimos superiores ao discriminarmos o próximo, estamos nos assumindo como “rebeldes”, ou seja, contrários à Lei de Deus.
É importante prestarmos atenção no que a Doutrina Espírita no ensina sobre isso. É preciso refletir: quantas vezes me aborreço quando “Fulano” não concorda comigo, “Beltrano” não faz do jeito que quero e “Cicrano” tem reações que não tolero, mesmo quando nem estou envolvido na situação? Mudo o meu humor, porque as pessoas são diferentes de mim? Acredito que a minha forma de pensar e agir é a melhor e não considero que “ALI DENTRO TEM GENTE”! Nesses momentos esqueço que o outro tem o direito de pensar, sentir e agir mediante a sua escolha, seus gostos, suas aspirações, seus desejos e convicções. E que desconsiderar isso é exaltar minha própria personalidade em detrimento do outro. E o nome disso, já sabemos, é o orgulho, sempre falando mais alto!
A boa convivência é buscar a harmonia. Contudo, é essencial considerar que não estamos sozinhos e, por isso, o outro também é importante, tanto quanto nós!

COMO ENCONTRAR A HARMONIA?
Reflitamos nas palavras de um espírito protetor que, ao falar sobre a fé e a caridade, nos lembra de que não devemos nos ocupar somente com a nossa felicidade, e que a vida terrestre deve servir unicamente para o nosso aperfeiçoamento moral, e ressalta a importância do convívio com as diferenças. Ele diz: “Sem considerar as vicissitudes comuns da vida, a diversidade de vossos gostos, das tendências e das necessidades são também um meio de vos aperfeiçoardes, exercitando-vos na caridade, porquanto só à custa de concessões e de sacrifícios mútuos podereis manter a harmonia entre elementos tão diferentes. (Cap. XIII, item 14)
Como podemos ver, as concessões e sacrifícios mútuos são necessários ao nosso aperfeiçoamento. Não é só o outro que tem sempre que ceder. Nós, também! O problema está em nos lembrarmos disso nos momentos comuns da vida. Podemos dizer que já até sabemos disso, mas na hora… “o sangue ferve”! É aí que os nossos “espinhos” machucam o outro e nem percebemos que também “nos” prejudicamos, atrasando o nosso desenvolvimento! O que nos auxilia em tais ocasiões é o esforço que fazemos para “domar as más inclinações”, como nos diz Kardec quando se refere aos bons espíritas (Cap. XVII, item 4). É uma luta pessoal que nos leva ao questionamento feito por ele aos espíritos quanto à possibilidade de o homem vencer seus maus pendores através dos seus esforços e a resposta: “Sim, e, algumas vezes, através de pequenos esforços; é a vontade que lhe falta. Que pena! Quão poucos dentre vós esforçam-se para isto”! (O Livro dos Espíritos, q. 909).
Os esforços contínuos e perseverantes nos levarão a conquistas que nem imaginamos ser capazes. Emmanuel nos orienta que devemos canalizar nossas forças para combater o “egoísmo, esse monstro devorador de todas as inteligências, esse filho do orgulho que é a fonte de todas as misérias aqui na Terra”, e também nos lembra que “é preciso mais coragem para vencer a si mesmo do que para vencer os outros” (Cap. XI, item 11).
O Espiritismo, trazendo o entendimento da nossa condição de espíritos imortais, confirma o ensinamento de Jesus, quando disse que a verdade nos libertará das ilusões acerca de nós mesmos. Somente cresceremos quando compreendermos que estar em contato com os outros acelera o nosso progresso, se agirmos com equilíbrio, paciência e benevolência.
Considerando um aspecto mais profundo, que é quando somos magoados, feridos por alguém, também nos cabe, como espíritas, o esforço de compreender que o outro só fez o que fez porque não sabe fazer melhor e, um dia, fará. Cárita ressalta que “pode-se ser caridoso mesmo com os parentes, com os amigos, sendo indulgentes uns com os outros, perdoando as suas fraquezas e tendo o cuidado de não ferir o amor-próprio de ninguém” (Cap. item 14). Mas, por que não é tão fácil ser indulgente com as fraquezas dos outros?

SERÁ QUE O MAL ESTÁ EM NÓS?
A indulgência com relação aos outros deve ser um esforço constante em nossos relacionamentos, se quisermos encontrar a felicidade, pois o que não percebemos é que essa contínua cobrança sobre as atitudes do outro é reflexo ainda do nosso próprio desajuste.
Ilustrando essa ideia, analisemos esta historinha: “Marta e Beatriz, duas irmãs viúvas, moravam na mesma casa. Marta era uma dessas pessoas que reclamam o tempo todo. Beatriz, entretanto, escutava a irmã serenamente, sem nada retrucar. Dia após dia era a mesma situação: Marta reclamava e Beatriz escutava em silêncio… Até que um dia receberam a visita de uma amiga em comum que ficou indignada depois de presenciar tanta murmuração. E ela perguntou para Beatriz como conseguia aguentar aquela convivência com Marta sempre a reclamar. Beatriz respondeu: “Eu não ligo, não é comigo mesmo”! Só havia as duas naquela casa, mas Beatriz não tomava para si a reclamação da irmã, pois sabendo que ela estava sempre de mal com a vida, todas as suas reclamações só podiam ser para si mesma”. É muito comum nos consultórios psicoterápicos as queixas iniciais contra o outro revelarem a origem do conflito no próprio queixoso. O desagrado excessivo para com os outros, associado ao desejo de controle, posse ou reconhecimento, revela uma insatisfação interna e, talvez, um desejo oculto de ser o que não consegue ser.
Assim, quem está “resolvido”, consciente das suas emoções, não se preocupa em suportar outro, mas servir de suporte. Muitos exemplos se apresentam em nossa vida para nos estimular a fazer o mesmo e a considerar que estamos aqui, neste mundo, para aprendermos a servir de sustentação, uns dos outros. Certamente, tudo ficaria melhor se nos ajudássemos, mutuamente, aprendendo a viver com as diferenças e com os incômodos que os outros nos causam, ajudando sempre cada um a ser melhor a cada dia. Podemos crer, pelo muito que nos foi oferecido, que já podemos fazer mais do que a Beatriz desta historinha, já podemos auxiliar as pessoas, como Marta, a prestarem atenção em suas próprias dificuldades e carências, muitas vezes, com uma indagação aparentemente sem propósito: “– Já prestou atenção qual o verdadeiro motivo do seu mau humor”? E, “se sobreviver aos espinhos”, apresentar a Doutrina que nos esclarece, ou, no mínimo, fazer uma prece a seu favor.
Antonio de Aquino, esse Benfeitor querido que tanto ilumina os bons sentimentos em nossos corações, nos diz: “Uma sociedade como a nossa, que se forma, pede companheiros bons, mas atrai companheiros infelizes. E os infelizes são aqueles que cobram comportamentos, porque justamente não são capazes de avaliar a sua própria inferioridade. E os que estão perseverantes no Evangelho, no estudo, na compreensão, na difusão, no trabalho, enfim, estes modelam tais almas pelos exemplos que dão, pelo comportamento equilibrado e pelo gesto contínuo de amor ao próximo”.
Esse é um bom momento para analisarmos em que situação nos encontramos: se estamos agindo como bons companheiros de suporte ou, ainda, como companheiros infelizes que não suportam, cobrando comportamentos.

SERÁ QUE SOMOS PUBLICANOS REDIVIVOS?
Os antigos judeus traziam uma crítica severa aos Publicanos que, na época de Jesus, cobravam os impostos de maneira abusiva. Podemos, hoje, refletir, mais conscientemente, se estamos assumindo um papel parecido, cobrando, “de maneira abusiva”, os comportamentos que esperamos das pessoas com quem convivemos, esquecendo suas dificuldades, desejos, gostos e necessidades. Será que somos publicanos redivivos, “Cobradores de Comportamentos”?
Façamos uma revista em nossas ações em relação aos companheiros de caminhada e vejamos se estamos constantemente cobrando o que, muitas vezes, eles nem são capazes de fazer, só para nos satisfazermos, mesmo que no momento seguinte aquilo já não seja do nosso agrado. Aprendamos a cobrar melhores atitudes de nós mesmos. Buscando o autoconhecimento encontraremos o que precisa de reforma em nós, e, como uma gotinha caindo num lago, nossas ações reformadas atingirão todos ao nosso redor e estaremos melhorando o mundo em que vivemos.
Atualmente, até em alguns ambientes de trabalho, há o esforço para manter a boa convivência que se reconhece como bom relacionamento interpessoal e boa comunicação, aumentando o aproveitamento das ideias diferenciadas. Percebeu-se que as pessoas intolerantes geram uma mobilização afetiva negativa no ambiente de trabalho e, se identificadas nas entrevistas psicológicas para emprego com a síndrome do “EUquipe”, serão consideradas inabilitadas para o sistema, razão por que muitos não conseguem empregos e não sabem o porquê, apesar de cumprirem, aparentemente, os requisitos na seleção. Quando se considera as diferenças e as novas sugestões, têm-se encontrado soluções mais simplificadas e práticas para problemas inicialmente complexos. O esforço tem sido para não desprezar opiniões. O progresso está, em verdade, em aprender a servir e confiar em si e no outro.
Aprender a conviver com os diferentes é aprender a conviver com os iguais, pois, na verdade, todos somos um! Se assim nos considerarmos, somaremos esforços para um mundo melhor, mais humanizado, livre de tantas angústias e aflições, e repleto de compreensão e auxílio mútuo.
Há uma frase que expressa o nosso real valor e o valor do outro em nossas vidas: “Nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos”!
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Bibliografia

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: CELD, 2008.
______________. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: CELD, 2008.
AQUINO, Antonio. [Psicografado por Altivo Carissimi Pamphiro] Inspirações do Amor Único de Deus – vol 2Rio de Janeiro: Editora CELD.

O Tempo de Deus - Rossandro Klinjey


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

'Não me sentia realizada como atriz', diz Cecília Dassi, hoje psicóloga

Redação Vida e Estilo
*Por Débora de Andrade

Deixar para trás uma carreira de sucesso na TV, construída ainda na infância, a fim de trilhar um novo caminho em busca de mais realização pessoal. Foi o dilema que viveu a ex-atriz e hoje psicóloga clínica, coach e palestrante Cecília Dassi. Ela começou a atuar ainda criança, em séries e comerciais, e conquistou o público ao interpretar a esperta Sandrinha na novela “Por Amor” (1997), quando tinha só 7 anos. Hoje, aos 27, Cecília tem no currículo mais de 10 atuações na TV, entre seriados e novelas de destaque – como “A Padroeira”, “Alma Gêmea” e “Viver a Vida” –, além de trabalhos em filmes e peças de teatro. Junto com a carreira de atriz, Cecília cursou psicologia e decidiu, em 2013, sair dos sets de filmagem para trabalhar no setting terapêutico, ajudando pessoas a terem uma vida mais satisfatória e feliz.
“Eu não me sentia infeliz como atriz. Mas sentia que faltava algo. É difícil explicar. Era como se eu estivesse meio fora do trilho. Eu gostava de atuar, e não sentia estar distante do que eu queria fazer, já trabalhava com o ser humano. Mas tinha uma questão de missão, sabe? Eu fazia algo que curtia, mas não estava fazendo a diferença e construindo algo que fizesse sentido para mim, não era meu propósito”, conta em entrevista ao Yahoo Brasil. “Quando eu pensava em qual seria a maior realização de uma atriz, por exemplo, ganhar um Oscar, eu não sentia que isso iria me preencher. Mesmo se tivesse o maior destaque dentro da carreira, eu continuaria achando que não era o meu propósito.”
Essa reviravolta toda começou quando Cecília terminou o Ensino Médio e decidiu cursar psicologia. Até então, a ideia ainda era conciliar as duas coisas, porque a outra área poderia ajudá-la como atriz. “Quando eu acabei ‘Viver a Vida’ (2010), a última novela que eu fiz, eu já estava cursando psicologia e estava muito encantada, mas não tinha planos de ser psicóloga. Meu contrato acabou sendo renovado com a Globo, e naquele momento eu ainda tinha interesse em continuar na profissão”, relembra Cecília.
No entanto, no período desse último contrato, ela não foi chamada para trabalhos. “Foi um momento em que eu pude ficar estudando e me aperfeiçoando sem precisar trabalhar. Mas não podia me comprometer em trabalhar em outra coisa porque como contratada da Globo eu teria que estar à disposição da empresa. Isso me deixou num limbo, e eu me sentia um pouco angustiada.”
Nesse período longe da TV e mergulhada no seu próprio processo de terapia e nos cursos de psicologia, Cecília se viu num momento de crise, em que precisava decidir. Não havia como ter uma clínica de psicologia e atuar em novelas. “Não só do ponto de vista de largar uma carreira pela estabilidade, mas pela ideia de que ‘caramba, eu construí a minha vida em cima disso, a minha mãe se mudou de cidade para realizar meu sonho’ [Cecília se mudou ainda criança de Esteio, no Rio Grande do Sul, para o Rio de Janeiro, onde vive ainda hoje.]. Então foi um processo difícil mas de muito amadurecimento. E sou muito grata por ter tido coragem”, afirma.
Quando o contrato acabou e a Globo decidiu não renovar foi que Cecília sentiu que estava tomando a decisão certa, ficando livre para decidir o rumo do próprio futuro. “Me deu um frio na barriga, foi assustador, mas foi bom. A gente precisa investigar o que a gente quer da vida e o que faz sentido.” Ela conta ainda que recebeu apoio da família para mudar de área. “Minha mãe percebeu como a psicologia estava me encantando e como eu fui sendo engolida com o maior prazer.”

Trauma de infância

Cecília conta que ainda enfrenta reações surpresas de pessoas, que costumam achar que ela sofreu algum trauma ou frustração, e por isso decidiu largar a profissão de atriz. Mas não se incomoda. “Eu só digo que não faria uma novela ou uma peça pois são coisas que demandam muito tempo de envolvimento, dedicação. E não teria como conciliar com meu consultório que é hoje a minha prioridade. Mas se aparecesse um filme, em que o processo é mais possível de conciliar com a minha agenda, eu faria.”
No ar em “Por Amor”, no canal Viva, Cecília não tem tido tempo para assistir a reprise, mas fica feliz quando consegue, porque assim tenta se recordar de uma época da qual não tem muitas lembranças. “Eu adoro me assistir, é como se fosse a primeira vez que aquilo estivesse acontecendo. Mas eu lembro que sempre fui muito rígida comigo. Tinha uma preocupação muito grande em ser boa, fazer tudo direito, me sair bem. Se alguém me fazia um elogio, eu respondia dizendo que ela falava aquilo para me agradar. Mas quando falavam algo ruim, eu levava muito em consideração”, recorda.
Para Cecília, a curiosidade do público em saber sobre sua mudança de carreira pode ajudá-la a transmitir a mensagem de que “podemos nos transformar”, e que realização e sucesso “são questões muito particulares, que precisam estar além das aparências de uma carreira bem-sucedida”.

Novas realizações

Participar de uma conferência do TED, plataforma internacional com apresentações inspiradoras, era um grande sonho de Cecília, que ela acabou de realizar no mês passado.
“Eu fiquei muito ansiosa! As pessoas diziam ‘ah, mas você está acostumada a falar em público!’, mas ali era bem diferente. Eu falaria como Cecília, e não como uma atriz, uma personagem. Minha fala girou em torno da ganância. Eu acredito que ninguém é obrigado a ter um grande sonho, mas qualquer pessoa que tenha um, não pode ser obrigada a deixá-lo na gaveta. Quero mostrar que o ser humano pode realizar coisas incríveis e quantas delas não teriam acontecido se as pessoas não tivessem tido tanta gana, vontade.”
Apesar de estar distante da TV, Cecília pode ser assistida em vídeos de seu canal no YouTube. O objetivo da jovem é mostrar que terapia não é algo de quem perdeu o controle da própria vida, mas sim uma ferramenta para o autoconhecimento.
“Quero acabar com o preconceito de que terapia é chato, ou um atestado de que você estava tão no fundo do poço que precisou de um psicólogo. Ela não é só para quem está mal, ela pode te ajudar muito a se realizar. Você pode descobrir mais potenciais, ficar mais em paz na vida, criar seus filhos melhor, viver bem com a família. O desafio é como criar uma coisa interessante que as pessoas tenham curiosidade de assistir e de se transformarem também.”
Cecília tem muitos planos e hoje estabelece metas para curto e médio prazo para focar e ver como eles se desdobram. O próximo projeto, que deve começar ainda este ano, é é criar uma plataforma online para tornar o acesso ao autoconhecimento e autodesenvolvimento mais possível para um grande público.
“Sei que terapia não é algo barato, o que distancia muita gente de ter esse contato. Esse grupo online deve ter um valor bem acessível, que seja viável para mim e para o público. Claro, não é para substituir a terapia presencial, mas é para instigar as pessoas. E para quem não tem como pagar o valor de uma terapia convencional, seria melhor do que nada. Quero despertar nas pessoas a curiosidade. A grande magia do ser humano é vislumbrar uma realidade diferente do que está e conseguir viabilizar isso. É lindo.”
Notícia publicada no Portal Vida e Estilo, em 12 de junho de 2017.

Cristiano Carvalho Assis* comenta

Sempre que leio ou vejo algo que demonstra a vocação de uma pessoa ou a coragem dela de seguir seu coração, me lembro da questão 928 de O Livro dos Espíritos:
“Evidentemente, por meio da especialidade das aptidões naturais, Deus indica a nossa vocação neste mundo. Muitos dos nossos males não advirão de não seguirmos essa vocação? Assim é, de fato, e muitas vezes são os pais que, por orgulho ou avareza, desviam seus filhos da senda que a Natureza lhes traçou, comprometendo-lhes a felicidade, por efeito desse desvio. Responderão por ele. (...) se pode fazer outra coisa? Poderá sempre tornar-se útil na medida de suas faculdades, desde que não as aplique às avessas. Assim, por exemplo, em vez de mau advogado, talvez desse bom mecânico, etc. No afastarem-se os homens da sua esfera intelectual reside indubitavelmente uma das mais frequentes causas de decepção. A inaptidão para a carreira abraçada constitui fonte inesgotável de reveses.”
Observando esta questão, concluímos que realmente todos temos nossas aptidões e certas vocações na vida que nos completa, onde o distanciamento poderá nos trazer grandes decepções. Com a ex-atriz não foi diferente, algo dentro dela gritava qual o caminho que o seu “eu” desejava percorrer.
Mas, mesmo assim, observando o caminho que almejava, não foi fácil. A atriz precisou de coragem para seguir seu coração, pois sabemos que todas as escolhas trazem renúncias e afetam quem está ao nosso redor. A escolha anterior fez a família mudar de cidade, a de se tornar psicóloga precisaria de novos sacrifícios.
Com certeza, os amigos, parentes ou pessoas em geral devem ter buscado convencê-la de continuar como atriz, pois já tinha conseguido o que poucos fizeram, adquirido destaque na sociedade e melhorado financeiramente. E muitos devem ter perguntado: “Mas por que deixar tudo isso?”
E a melhor resposta que posso imaginar é: Para ser feliz. Para cada um de nós a felicidade está em um ponto diferente. Algo que imaginamos ser o mais alto grau de felicidade para um pode ser um martírio para o outro. Algo que me completa não tem o menor sentido para os outros. Para a atriz, o que lhe completa é influenciar as pessoas de outra maneira. O que deixa seu coração repleto de felicidade é estar atuando como psicóloga, não como atriz.
A Doutrina Espírita ainda nos mostra que temos deveres trazidos de outras vidas, os quais estão gravados em nosso subconsciente. É provável que um dos deveres dela estava relacionado em assumir este papel perante a sociedade. E no momento que realizamos ou ao menos vamos nos aproximando de nossas missões, programadas na erraticidade, nosso Espírito se preenche de uma satisfação íntima de dever cumprido.
Cecília Dassi deve ter sentido essa satisfação íntima, não como artista, mas sim como psicóloga, pois como na resposta dos Espíritos acima: “em vez de mau advogado, talvez desse bom mecânico”. No caso em questão, em vez de uma atriz frustrada, uma psicóloga feliz e realizada.
Quem de nós não precisou ou precisará fazer escolhas difíceis, as quais mudarão o sentido de nossas vidas? Da mesma forma que ocorreu com ela, acontecerá conosco momentos como este. Será que o nosso progresso moral e intelectual será possível se não tivermos esses desafios? Vocês já devem ter passado por situações em que precisaram escolher entre ganhar mais ou ficar com a família, ir para festas ou para uma assistência social, escolher entre você ou a outra pessoa, ser bom ou ser indiferente e egoísta. Não importa se são pequenas ou grandes escolhas, todas nos trarão consequências boas ou más, dependendo do caminho que escolhermos.
É preciso muita coragem para enfrentar aqueles que dizem para continuar como está, os nossos pensamentos que ficarão martelando se foi a melhor escolha e o medo de trocar uma coisa estabilizada para outra que não sabemos o resultado. É complicado seguirmos nossa consciência; ela sempre buscará nos guiar pelo melhor caminho, mas nem sempre este é o mais fácil e o menos trabalhoso.
Não há dúvida, por vezes nossa consciência poderá nos dizer que não estamos seguindo o caminho que nosso coração desejava. Por vezes poderemos observar que estamos seguindo o que a sociedade, um familiar ou alguém determinou para mim, mas que lá no fundo não era o queria. E por vezes chegamos a observar um vazio na alma pelas escolhas feitas.
No entanto, nestes e em todos os “por vezes” que virão de nossas escolhas, tenhamos a certeza que SEMPRE poderemos escolher novos caminhos, com coragem, fé em Deus e em nós, paciência e amor à vida. Esta vida que se torna maleável a todos que acreditam que, mesmo sendo difícil e trabalhoso, é possível seguirmos nossos corações e sermos felizes.
* Cristiano Carvalho Assis é formado em Odontologia. Nasceu em Brasília/DF e reside atualmente em São Luís/MA. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Maranhense e colaborador do Serviço de Atendimento Fraterno do Espiritismo.net

domingo, 22 de outubro de 2017

Mulheres árabes e judias marcham pela paz entre Israel e palestinos

Grupo também pede participação feminina em negociações

POR O GLOBO

CISJORDÂNIA — Milhares de mulheres palestinas e israelenses realizaram neste domingo um protesto exigindo que os líderes dos dois países cheguem a um acordo de paz. A manifestação começou na Cisjordânia, durante a manhã, e foi encerrada em Jerusalém.
De acordo com a Associated Press, 8 mil mulheres se reuniram durante a manhã numa região ao norte do Mar Morto, na Cisjordânia, sob a “tenda da reconciliação”. Mulheres e crianças árabes e judias ficaram lado a lado, com cartazes que diziam “A paz depende de você”, em árabe e hebraico.
O protesto deste domingo é o antepenúltimo ato do projeto “Jornada para a paz”, promovido pela ONG Women Wage Peace, que teve início no último dia 24.
Além da paz entre os dois países, a ONG luta para garantir que mulheres tenham representação nas negociações. O presidente dos EUA, Donald Trump, está tentando reiniciar as conversas entre os dois lados desde que as negociações foram encerradas, em 2014.
Notícia publicada no Jornal O Globo, em 8 de outubro de 2017.

Márcia Rodrigues* comenta

Nesse mundo em ebulição, com ameaças de conflitos em diversos pontos do planeta, onde a religião ainda é usada como desculpa para a conquista de territórios e opressão de povos, um grupo de mulheres de culturas antagônicas se une em defesa da paz.
A ONG Women Wage é uma organização formada por mulheres da Palestina e Israel, que se movimenta para contribuir nas discussões que objetivam atingir a paz entre os dois povos. Para isso ela propõe que mulheres sejam inseridas nos centros de decisão e estão mobilizando a opinião pública, utilizando as mídias digitais, ou seja, elas estão se colocando em um lugar que as mulheres não costumam ocupar nessas culturas.
Durante muitos séculos, observamos o domínio e a opressão das mulheres. Sofrendo preconceitos e violências. Sendo negado o acesso à educação, à cultura e a diversos direitos básicos. “A situação da mulher, na civilização contemporânea, é difícil, não raro dolorosa. Nem sempre a mulher tem por si os usos e as leis; mil perigos a cercam, se ela fraqueja, se sucumbe, raramente se lhe estende mão amiga. A corrupção dos costumes fez da mulher a vítima do século.”(1)
Temos convivido com a ideia de que as mulheres são seres inferiores, quando, na verdade, homens e mulheres têm os mesmos direitos, embora com papéis diferentes, “preciso é que cada um esteja no lugar que lhe compete. (...) A lei humana, para ser equitativa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher. Todo privilégio a um ou a outro concedido é contrário à justiça. A emancipação da mulher acompanha o progresso da civilização. Sua escravização marcha de par com a barbaria. Os sexos, além disso, só existem na organização física. Visto que os Espíritos podem encarnar num e noutro, sob esse aspecto nenhuma diferença há entre eles. Devem, por conseguinte, gozar dos mesmos direitos.”(2)
Como estamos vivendo um período de transição, os papéis estabelecidos no passado na sociedade estão se modificando e a mulher vem buscando encontrar seu espaço nesse novo contexto. Na busca por novas possibilidades, as mulheres vêm exercendo o direito de se posicionar, de manifestar sua vontade e de contribuir com a sociedade de maneira mais ativa.
Vemos esse grupo de mulheres se unindo para combater um mal que impacta a vida de todas elas, independente de que grupo ou religião que pertençam, já que a preocupação, a insegurança e o medo é comum a todas. Os riscos de terem suas famílias destruídas está sempre presente.
Essa sociedade, mesmo com acesso à tecnologia dos dias de hoje, é combativa e vem se envolvendo em guerras durante séculos, esse comportamento é recorrente.
Não é tão simples entender o que motiva essa atração, precisamos refletir que abandonar o uso da força para conquistar o que lhe parece importante é um processo de depuração da sociedade, já que o que impele o homem a guerra é a “predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e o transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem: o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos frequente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas. E, quando se torna necessária, sabe fazê-la com humanidade.”(3)
Essas mulheres se uniram pelo mesmo objetivo; estão exercendo um dos tantos aspectos possíveis do papel da mulher, além daqueles tradicionais, e que contribuem para a sustentação da nossa sociedade. “O papel da mulher é imenso na vida dos povos. Irmã, esposa ou mãe, é a grande consoladora e a carinhosa conselheira. Pelo filho é seu o porvir e prepara o homem futuro. Por isso, as sociedades que a deprimem, deprimem-se a si mesmas. A mulher respeitada, honrada, de entendimento esclarecido, é que faz a família forte e a sociedade grande, moral, unida!”(4)
Elas estão propondo uma discussão mais abrangente sobre como pode ser alcançado um acordo entre esses povos, através desse movimento organizado e planejado. Estão se encaminhando em direção da paz tão necessária, quebrando paradigmas, achando novas alternativas, e através dessas novas reflexões estão contribuindo para o progresso desses indivíduos.
O progresso moral é inevitável, e ainda que tomemos caminhos equivocados, até levaremos mais tempo e teremos aprendizados mais ou menos dolorosos; no entanto, o ponto de chegada, da pura e eterna felicidade, está esperando por todos nós, devemos apenas nos esforçar.
Precisamos sempre refletir se estamos nos esforçando o suficiente. A sociedade só irá se modificar se cada um de nós nos modificarmos também. Elas já começaram.

Fontes de Referência:

(1) “No Invisível” – Léon Denis – Primeira Parte - Cap. VII – O Espiritismo e a mulher;
(2) “O Livro dos Espíritos” – Allan Kardec – questão 822;
(3) “O Livro dos Espíritos” – Allan Kardec – questão 742;
(4) “O Problema do Ser, do Destino e da Dor” – Léon Denis – Segunda parte – Cap. XIII – As vidas sucessivas. A reencarnação e suas leis.
* Márcia Rodrigues nasceu em 30 de outubro de 1967, na cidade do Rio de Janeiro. Engenheira Civil, com especialização em Gestão de Projetos e Processos. É espírita e trabalhadora da Fraternidade Espírita Amor e Paz (FEAP). Colaboradora do Espiritismo.net no Serviço de Atendimento Fraterno off-line