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sábado, 27 de julho de 2019

Entrevista: Kardec, o filme

Marcel Souto Maior, autor da biografia de Kardec que inspirou o filme, Leonardo Medeiros, intérprete do Codificador e Wagner de Assis, diretor do longa, contam sobre curiosidades e bastidores desta produção prevista para ser lançada em 16 de maio de 2019.
Reformador: O que chamou a sua atenção para contar a história de Allan Kardec?
Marcel Souto Maior: Fui movido por uma pergunta-chave:  o que faz um professor cético mudar de vida e de nome, aos 53 anos, para dar voz aos Espíritos? Quis contar a história desta transformação radical – a do pesquisador cético, que se torna um missionário. O que o moveu? Que obstáculos – e preconceitos – ele enfrentou nesta caminhada?
O processo de escrita de uma biografia requer uma grande pesquisa. Nessa pesquisa você se identificou, de alguma forma, com Allan Kardec, no processo de Codificação da Doutrina Espírita?
Marcel Souto Maior: Sim. Eu me identifiquei com Kardec (ou com o professor Rivail) em dois pontos fundamentais: o cuidado com a pesquisa (precisamos estar sempre checando e “rechecando” informações para evitar erros) e o ceticismo (um dos traços marcantes de sua personalidade, como professor e pesquisador, na primeira etapa de sua vida). Moveu-nos um misto de curiosidade e de desconfiança.
Como é adaptar para o cinema a história do responsável por codificar a Doutrina Espírita?
Wagner de Assis: Por um lado, um novo desafio cinematográfico, com grande complexidade de realização, pois é um filme de época, cuja história se passa num outro país. Por outro lado, um respeito absurdo, uma humildade extrema e uma alegria imensurável. Não temos a pretensão de ser definitivos a respeito de Kardec. Há diversos trabalhos e estudos sobre ele e acho que devem ser feitos cada vez mais. Também não temos a pretensão de contar toda a sua vida, embora seja uma cinebiografia como gênero. Nós nos concentramos no que de mais importante aconteceu na vida dele. É um recorte, uma escolha e assim seguimos adiante. Vale lembrar também que não é um documentário, mas sim uma ficção, dramaturgia, que precisa respeitar algumas leis quando se conta uma história. O filme tem como base a forma como o Marcel Souto Maior escreveu a biografia.
Queremos contar um pouco da vida do professor Rivail para os que o conhecem, mas também para os que não o conhecem. Porque os primeiros sempre podem se surpreender com detalhes, aspectos humanos pouco comentados em geral. Os demais, com certeza, vão se surpreender muito ao encontrar um homem de seu tempo, um homem de ciências, um educador e professor à frente de seu tempo, e, acima de tudo, um homem de muita coragem e bom senso.
O que representa para você interpretar Allan Kardec?
Leonardo Medeiros: Sinto-me ao mesmo tempo imensamente agradecido e temeroso. Estou representando um ícone que faz parte da minha vida dentro de uma família espírita.
Como foi a escolha do elenco para este filme?
Wagner de Assis: Costumo dizer que é maravilhoso ver quando o filme tem vida própria e vai “escolhendo” os profissionais que nele tomarão parte. Claro que procuramos artistas que possam estar sintonizados com os personagens, na verdade sintonizados com pessoas que fazem parte de toda a história de Kardec. Mas a escolha em si tem sempre algo “mágico”, que foge aos aspectos puramente “acidentais”.
Um desses casos, por exemplo, foi Leonardo Medeiros. Nós nos conhecemos, falamos do projeto, lemos um pouco o roteiro e vimos claramente que ali havia um profissional absolutamente capaz de defender a história do professor Rivail na tela. Só depois é que, para nossa surpresa, soubemos de sua ligação com o tema, com a família do Eurípedes Barsanulfo. Isso é muito legal, mas de forma alguma representa um peso para a sua escolha. Assim o fizemos com todos do elenco. Os personagens vão se afeiçoando aos seus intérpretes e pronto. Ganham vida.
Rivail mudou de vida e de nome. Tornou-se Allan Kardec para dar voz aos Espíritos… A história de Kardec é a história de uma conversão, citou Marcel Souto Maior. O que podemos esperar desta adaptação nos cinemas?
Wagner de Assis: Uma jornada de transformação, movida por uma busca  incessante pela verdade, com um pano de fundo de uma sociedade muito sofrida, com índices altos de suicídio, qualidade de vida baixíssima e uma guerra de ideologias. Não poderemos jamais entender o passado com os olhos do presente. Mas podemos delinear como era a Paris de 1850, por exemplo. E buscar entender o papel das instituições como a Ciência, a Igreja, o Estado francês, para que os personagens possam vivenciar os dramas, os receios, os sonhos daquela época. Esta é a história de um homem que aceitou recomeçar de certa forma uma nova vida depois dos 50 anos. Costumo pensar metaforicamente que ele descobriu um tesouro e quis compartilhar com o mundo. Mas, claro, tinha um preço muito alto. E ele pagou para ver.
Nosso Lar exigiu muita criatividade   para   criar   detalhes que só existem no Mundo Espiritual. Qual é o desafio para a produção desta cinebiografia?
Wagner de Assis: Toda a composição de uma Paris que não existe mais. O filme se passa numa cidade que foi totalmente reformulada anos depois de nossa história. Filmamos “externas” em Paris para ter a luz da cidade, para ter o rio Sena, Notre-Dame, pontes históricas, mas há toda a necessidade de usar efeitos visuais e transformar aquela paisagem em algo que existiu há 160 anos. Além disso, temos também o desafio de atuação, de figurino, de fotografia críveis, que nos remetam àquele mundo. Nosso filme conta com o trabalho de profissionais altamente competentes, e o DNA de uma empresa como a “Conspiração”, que tem em seu currículo outras biografias muito bem contadas. Falo aqui também da produtora Eliana Soarez, do diretor de fotografia Nonato Estrela e do diretor de arte Claudio Amaral Peixoto. E, naturalmente, do roteirista que me ajudou a escrever a história, LG Bayão.
Que curiosidades das gravações podemos antecipar ao público?
Wagner de Assis: A maioria dos personagens é real. Todo mundo que existiu e de que temos notícia. Mas há algumas licenças para nos ajudar a contar a história de Rivail e do mundo em que ele viveu. Por isso temos alguns atores franceses em nosso elenco. Filmamos uma se- mana em Paris em lugares onde o próprio Kardec esteve, como o Palais Royal, onde ele instalou a primeira sede da Sociedade de Estudos Espíritas de Paris. Caminhamos em solo que realmente abrigou a História. Isto é muito rico para um filme.
Você diz não ter nenhuma religião, mas fascínio por este tema: a fé. Como as recentes biografias espíritas contribuíram com este olhar?
Marcel Souto Maior: Tenho fascínio mesmo pela fé e por este território invisível onde “vivos e mortos” se encontram. Neste ano estou revisitando alguns cenários – e também alguns personagens – destes 25 anos de pesquisas sobre Chico Xavier e também sobre outros universos religiosos (como o Centro de João de Deus, em Abadiânia). Estas viagens devem gerar meu próximo livro, uma mistura de retrospectiva e de diário de observação. As biografias espíritas me ajudam e me inspiram sempre.
Seu histórico conta hoje com 35 filmes e 17 prêmios. Seria a atuação em Kardec mais uma premiação destes esforços?
 Leonardo Medeiros: Sem dúvida essa atividade vem coroar uma carreira de décadas de dedicação ao trabalho de ator. Sinto-me humildemente premiado.
Como foi a descoberta do parentesco com Eurípedes Barsanulfo?
Leonardo Medeiros: Desde que me lembro, as imagens e histórias de Eurípedes e Kardec embalam meu imaginário. Quem nasceu numa família espírita sabe do que estou falando. Dentro da família sempre foi muito natural falar do Eurípedes, que é irmão do meu avô materno, portanto meu tio-avô. Cresci no seio de uma família espírita e fui educado dentro dos preceitos éticos da Doutrina. Independentemente da minha crença, tenho imenso orgulho dessa herança.
De Chico Xavier a Allan Kardec. Podemos esperar mais um marco na adaptação de seu livro para as grandes telas?
Marcel Souto Maior: Com Chico e Kardec, acho que o ciclo se fechou, mas nunca se sabe. Estou sempre levando alguns sustos – e tendo algumas surpresas – ao percorrer este território. Aguardemos! Só o tempo dirá!

domingo, 5 de maio de 2019

O amor de mãe é uma conquista espiritual

Waldehir Bezerra de Almeida 
waldehir.almeida@gmail.com
Será o amor materno um sentimento instintual, resultante de um determinismo biológico? O amor de mãe é influenciado pelo comportamento social, variando de acordo com a época e os costumes? Será ele uma conquista do Espírito em evolução? Por que há mães que não amam seus filhos? Sobre essas perguntas convidamos a leitora e o leitor para fazermos algumas reflexões. Estaremos em companhia de estudiosos encarnados e desencarnados, buscando melhor compreender esse sentimento decisivo na sustentação do nosso processo evolutivo, pois são as mães as criaturas a quem Deus confia a reencarnação dos Espíritos para uma nova experiência, na esperança de que retornem melhorados.
Allan Kardec, sensível e abrangente com relação aos sentimentos e emoções que predominam em nós, buscou saber dos Espíritos, na questão 890 de O livro dos espíritos, se o amor materno é uma virtude ou um sentimento instintivo, comum aos homens e aos animais, e a resposta foi ser “uma coisa e outra”. E acrescentaram que:
[…] A Natureza deu à mãe o amor pelos filhos no interesse da conservação deles. No animal, porém, esse amor
é limitado às necessidades materiais; cessa quando os cuidados se tornam inúteis. No homem, persiste pela vida inteira e comporta um devotamento e uma abnegação que são virtudes. Sobrevive mesmo à morte e acompanha o filho além do túmulo. Bem vedes que há nele outra coisa a mais que no animal.¹ (Grifo nosso).
Conclui-se, portanto, que o amor de uma mulher pelo seu filho é uma virtude e não um instinto, pura e simplesmente, pois:
O amor é uma conquista do espírito maduro, psicologicamente equilibrado; usina de forças para manter os equipamentos emocionais em funcionamento harmônico. É uma forma de negação de si mesmo em autodoação plenificadora.
Não se escora em suspeitas, nem exigências infantis; elimina o ciúme e a ambição de posse, proporcionando inefável bem-estar ao ser amado que, descomprometido com o dever de retribuição, também ama. Quando, por acaso, não correspondido, não se magoa nem se irrita, compreendendo que, o seu, é o objetivo de doar-se, e não de exigir. Permite a liberdade ao outro, que a si mesmo se faculta, sem carga de ansiedade ou de compulsão.²
Diante dessas informações, em que temos as características do amor maternal, podemos inferir que o exercício do amor materno é resultante de uma conquista e não de instinto, e é por essa razão que muitas mães não amam seus filhos como seria de esperar.
Ainda prevalece entre nós a crença de que as mães executam os procedimentos de maternagem e dedicam atenção e carinho aos seus filhos obedecendo ao chamado instinto maternal. Ora, sabemos que nem todas as mães manifestam um envolvimento automático e total com seus bebês, imediatamente após o parto. O que se tem observado é que o amor maternal está ausente em algumas mulheres e, em outras, se desenvolve gradualmente, a partir da interação da mãe com seu rebento.
Sabendo que o instinto de uma determinada espécie animal está sempre presente em seus membros, para a execução de atividades específicas, e que eles não evoluem, pois agem sempre da mesma forma, é natural que busquemos outras razões para explicar a origem do amor materno na mulher, já que nem sempre está presente em todas elas, embora pertençam à mesma espécie.
Uma extensa pesquisa histórica, lúcida e desapaixonada feita por Badinter³ levou-a à conclusão de que o denominado instinto materno na mulher é um mito, pois não há uma conduta materna universal, tal como acontece com os animais. Descobriu que esse sentimento é extremamente influenciado pela época, local e cultura em que vive a mulher. Verificou que houve ao longo do tempo e do espaço uma evolução das atitudes maternas, e que o interesse e a dedicação à criança não existiram em todas as épocas nem em todos os meios sociais. O mais interessante e bem consonante com o ensinamento dos Espíritos é que a autora da obra chegou à conclusão de que o amor materno não é um de terminismo biológico, mas algo que se conquista. Afirma ela:
Ao se percorrer a história das atitudes maternas, nasce a convicção de que o instinto materno é um mito. Não encontramos nenhuma conduta universal e necessária da mãe. […] Esse sentimento pode existir ou não existir; ser e desaparecer. Mostrar-se forte ou frágil. Preferir um filho ou entregar-se a todos. Tudo depende da mãe, de sua história e da História. Não, não há uma lei universal nessa matéria, que escapa ao determinismo natural. O amor materno não é inerente às mulheres. É “adicional”.⁴
Comparemos com o que nos ensina a mentora Joanna de Ângelis:
[…] A maternidade humana é mais do que um fenômeno biológico, tratando-se de uma experiência iluminativa e libertadora para a consciência, que descobre a necessidade de superação do egoísmo, de desenvolvimento de valores morais mais expressivos, para que o amor se encarregue de dirimir dificuldades e estabelecer parâmetros de comportamentos sadios, sem os exageros do apego ou do ressentimento, ou da transferência de amarguras e frustrações para os filhos, que se lhe tornam vítimas sem defesa… […]⁵
E o ministro Clarêncio não alimenta dúvidas quanto à necessidade que tem o Espírito de conquistar e sentir o amor maternal, afiançando que este não é instintual, nem nasce na mulher pelo fato de ela se tornar genitora. “[…] Maternidade” – diz ele – “é sagrado serviço espiritual em que a alma se demora séculos, na maioria das vezes aperfeiçoando qualidades do sentimento”.⁶
Por que nem todas as mães amam os seus filhos como se espera?
Diante dessa realidade, Kardec, na questão 891 de O livro dos espíritos, indagou o porquê de mães que odeiam seus filhos, já desde a infância, se o amor é Lei Natural? A resposta foi:
“Algumas vezes, é uma prova escolhida pelo Espírito do filho, ou uma expiação, se ele mesmo foi mau pai, ou mãe perversa, ou mau filho, em outra existência. Em todos os casos, a mãe má não pode ser animada senão por um Espírito mau […]”.⁷
Diante da elucidativa resposta, não é de bom senso admitir que a mulher possui um instinto materno e que deverá, naturalmente, amar seu filho. A Doutrina Espírita tem informações elucidativas que nos fazem compreender, com indulgência, o porquê de existirem mães que amam seus filhos e as que não os amam. Tanto umas quanto outras, antes de vestirem o escafandro da carne, se propuseram a uma empreitada redentora, em que o ódio deveria ser substituído pelo amor, os prazeres egoicos dariam lugar à renúncia, e o sacrifício seria um prazer em prol do amor a ser conquistado, anulando os mecanismos cármicos entre elas e os filhos, levando-se em conta que
O amor não se instala de um para outro momento, tendo um curso a percorrer.
Apresenta os seus inícios na amizade que desperta interesse por outrem e se expande na ternura, em forma de gentileza para consigo mesmo e para com aquele a quem se direciona.⁸
Mães que não amam seus filhos sempre existiram em todos os tempos. A História informa que, no primeiro milênio do Império Romano, o enjeitamento de crianças, bem como sua venda era prática comum. Mercadores de escravos recolhiam os enjeitados nos santuários ou nos monturos públicos. A extrema pobreza impelia os miseráveis a venderem seus filhos a traficantes, que os compravam saídos recentemente do ventre da mãe.
Na Modernidade, Badinter relata que em:
1780: o tenente de polícia Lenoir constata, não sem amargura, que das 21 mil crianças que nascem anualmente em Paris, apenas mil são amamentadas pela mãe. Outras mil, privilegiadas, são amamentadas por amas de leite residentes. Todas as outras deixam o seio materno para serem criadas no domicílio mais ou menos distante de uma ama mercenária.⁹
O primeiro sinal de desamor da mãe pelo filho é negar-lhe o seio, onde o bebê encontra o alimento físico e psíquico de quanto necessita para o seu desenvolvimento natural. No Brasil Colônia, muitas mães entregavam os seus bebês às negras lactantes das senzalas para alimentá-los. Umas por não terem leite suficiente, outras por comodidade. Essas informações nos levam a admitir que o amor materno é defectível e sofre a influência das condições culturais, morais e materiais.
Com relação às mães que não amam seus rebentos, o Espírito Blandina lamentou:
[…] há mulheres cujo coração ainda se encontra em plena sombra. Mais fêmeas que mães, jazem obcecadas pela ideia do prazer e da posse e, despreocupando-se dos filhinhos, lhes favorecem a morte. O infanticídio inconsciente é largamente praticado no mundo […]¹⁰ (Grifo nosso).
Em nossa sociedade, a mãe que não ama seu filho é tida como uma megera, uma desnaturada. O fato se torna inexplicável para os que não admitem a reencarnação. A Doutrina Espírita, com sua lógica consonante com as Leis de Justiça e Amor divinos, explica satisfatoriamente e de forma caridosa o porquê de algumas mães não se comportarem como todos desejamos. Quando elas encontram dificuldades para amar seus filhos é porque tiveram com eles relações conflitivas em vidas passadas. Os sentimentos negativos, escapando do inconsciente profundo, dificultam-lhes a relação com o rebento e impedem-lhes, muitas vezes, a consecução da sua missão redentora. São elas, portanto, merecedoras de compreensão, devendo ser o seu comportamento analisado com indulgência.
O Espírito André Luiz relata-nos o caso de uma candidata à maternidade redentora e que pratica o aborto por ser o reencarnante um Espírito que ela odeia, protelando, assim, a oportunidade da reconciliação. Diante da tragédia que se consumava em meio a mútuo rancor, esclareceu o mentor Calderaro o que se passava:
[…] Os laços entre mãe e filho presuntivo são de amargura e de ódio, consubstanciando energias desequilibrantes; tais vínculos traduzem ocorrência em que o espírito feminino há que recolher-se ao santuário da renúncia e da esperança, se pretende a vitória. Para isso, para nivelar caminhos salvadores e aperfeiçoar sentimentos, o supremo Senhor criou o tépido e veludoso ninho do amor materno; contudo, quando a mulher se rebela, insensível às sublimes vibrações da inspiração divina, é difícil, senão impossível, executar o programa delineado. […]¹¹
Podemos concluir que ser mulher e ser mãe é uma condição circunstancial. Logo o amor materno não constitui um sentimento inerente à psicologia feminina, não é um determinismo biológico, portanto, não é instintual. Ser mulher e mãe é uma experiência que o Espírito aceita em nome do progresso.
Podemos concluir, após termos aprendido, que o amor de uma mãe pelo seu filho deve ser conquistado. Não surge somente pelo fato de ela ter abraçado a maternidade. É um amor conquistado à custa de muita renúncia. Em razão dessa verdade, é legítimo seja considerado o mais puro e verdadeiro amor que alguém possa dedicar a outrem.
REFERÊNCIAS:
¹ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos . Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017.
² FRANCO, Divaldo P. O homem integral . Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 2. ed. Salvador: LEAL, 2000. Pt. 7, Relacionamento perturbadores , p. 114.
³ BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado : o mito do amor materno. Trad. Waltensir Dutra. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985. 
⁴ ______. ______. Paraíso perdido ou reencontrado?
⁵ FRANCO, Divaldo P. O despertar do espírito . Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 1. ed. Salvador: LEAL, 2000. Desafios afligentes , it. Desespero.
⁶ XAVIER, Francisco C. Entre a Terra e o céu . Pelo Espírito André Luiz. 27. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2018. cap. 28 – Retorno.
⁷ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos . Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017.
⁸ FRANCO, Divaldo P. Amor, imbatível amor . Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1998. Pt. 13, cap. 62 – Amor que liberta.
⁹ BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado . Trad. Waltensir Dutra. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985. Prefácio.
¹⁰ XAVIER, Francisco C. Entre a Terra e o céu . Pelo Espírito André Luiz. 27. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2018. cap. 10 – Preciosa conversação.
¹¹ ______. No mundo maior . Pelo Espírito André Luiz. 28. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 10 – Dolorosa perda.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Artigo: Quem Matou Jesus?

Quem Matou Jesus?

 Anízio Fernandes de Moraes
Hoje, 06/07/2004 (d.C.) começo, com muito atraso, a responder as questões formuladas pelo jovem Petrick em 12/05/2004 (d.C.). As dúvidas de Petrick são as dúvidas da humanidade, porque o homem Jesus, pela sua importância, dividiu a história da humanidade em duas épocas: antes de Cristo (a. C.) e depois de Cristo (d. C.). A figura de Jesus encantou filósofos, cientistas, historiadores e artistas. A sua bondade e humildade levou a paz, o alívio, a cura a milhões de pessoas. Porém, com tudo o que foi dito a seu respeito, ele continua a ser um grande mistério.
O que sabemos sobre Jesus vem dos Evangelhos. A veracidade dos textos são contestadas por historiadores e teólogos. Há grande número de evangelhos, mas apenas quatro são aceitos por todas as igrejas cristãs: os chamados "canônicos" (de acordo com a regra) atribuídos a Marcos, Mateus, Lucas e João. Os demais foram considerados "apócrifos" (não autênticos). O Evangelho mais antigo, o de Marcos, foi redigido entre 66 e 68 d.C.. Os de Mateus e Lucas na década de 80 d.C.. Entre 90 e 110 d.C. foi concluído o de João. Por este motivo os evangelhos não são totalmente confiáveis, pois suas composições foram relativamente tardias, ou seja, escritas várias décadas após a morte de Jesus. Os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são muito semelhantes (possuem 330 versículos em comum), o que nos leva a pensar que mantiveram algum contato na elaboração dos evangelhos. Por isso são chamados de "sinóticos" (num rápido olhar se vê todas as partes do conjunto).
Tudo o que se sabe até hoje sobre Jesus está fundamentado em pesquisas científicas, fruto da análise de historiadores e cientistas e no estudo dos evangelhos e documento afins.
I - A época em que Jesus viveu
Para respondermos às questões de Petrick é necessário que conheçamos a época em que Jesus viveu, ou seja, estudar o ambiente político, social e religioso. Como sabemos, a humanidade vive ao sabor das alternâncias dessas três forças, que condicionam o comportamento e determinam direitos e obrigações.
Vamos comentar rapidamente alguns aspectos sobre o surgimento da nação judaica, para que possamos entender os aspectos psicológicos que norteiam o povo palestino, canalizados para um fanatismo religioso, no qual se identificam como o povo eleito de Deus.
Na época em que Jesus viveu, há dois mil anos, os territórios que correspondem hoje a Israel e à Palestina se encontravam sob o domínio romano. Esta região, ainda hoje, é palco de graves conflitos envolvendo judeus e palestinos, motivados por questões políticas e religiosas, mais políticas do que religiosas. Antes disso, desde o século 6 a.C., a região fora conquistada sucessivamente por babilônios, persas e gregos. Roma consolidou sua ocupação em 63 a . C.
A história da nação Israel se iniciou com Abraão, o Patriarca, que conversava com Deus e recebeu Dele a missão de conduzir o povo hebreu para Canaã (região da Palestina e da Fenícia), local onde seria constituída uma grande nação.
Abraão era homem de muita fé. A suprema prova da fé de Abraão ocorreu quando, em obediência às instruções de Deus, construiu um altar e preparou-se para oferecer Isaque, seu filho, como sacrifício queimado. No último instante Deus interveio e ofereceu um carneiro como substituto de Isaque.
Israel (Perseverador com Deus). Nome que Deus deu a Jacó quando este tinha cerca de 97 anos. Israel se consolidou como nação após ter o povo israelita se libertado da escravidão do Egito e ter se fixado na terra prometida. "Assim, libertado legalmente do Egito, Israel tornou-se propriedade exclusiva de Jeová. "Somente a vós vos conheci dentre todas as famílias do solo". (Êx 19:5,6). Deus então achou apropriado, contudo, lidar com eles, não estritamente como sociedade patriarcal, mas sim como a nação de Israel, que Ele (Deus) criou, dando-lhe um governo teocrático alicerçado no pacto da Lei como constituição. (Estudo Perspicaz das Escrituras, pg. 450)
Israel era uma nação teocrática, mesmo porque, segundo a Bíblia, o seu governo fora determinado por Deus. Portanto, politicamente falando, os direitos e deveres dos cidadãos eram impostos por pessoas que se achavam investidas de poderes divinos. Essa característica do poder, envolvida por profundo fanatismo religioso, impunha ao povo um regime austero e intransigente. (As análises têm por base a Bíblia)
Como já relatamos no início, a região da Palestina estava ocupada pelo império romano desde 67 a. C.. Assim, Israel tinha um governo teocrático que era subordinado ao imperador romano.
II - Atitudes de Jesus que o levaram a julgamento
Alguém matou Jesus. A morte de Jesus não foi um acidente. Porém, ninguém publicou algo que relatasse o processo e o concluísse trazendo provas irrefutáveis sobre o autor ou autores do crime. Os cristãos não acompanharam o julgamento, pois já tinham fugido quando Jesus foi capturado. A elite sacerdotal ou o poder romano nada registrou, porque Jesus era insignificante para eles. Quem realmente matou Jesus: a elite judaica; os romanos; os judeus, ou o próprio Jesus?
Segundo os Evangelhos, Jesus foi levado diante do Sinédrio, na presença do Sumo Sacerdote Caifás, onde os escribas e anciãos estavam reunidos. O chefe dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um falso testemunho contra Jesus, a fim de matá-lo. Apresentaram-se duas falsas testemunhas que afirmaram ter Ele dito: "Posso destruir o Templo de Deus e edificá-lo depois de três dias" e por ter afirmado que era Cristo, filho de Deus (Mt 26: 57-68), faltas consideradas graves e por isso foi levado para ser julgado por Pôncio Pilatos,
a) A elite judaica. Jesus foi levado a Pilatos, que era o governador romano da Judeia durante o ministério terrestre de Jesus, por ordem das autoridades judaicas para ser julgado sob a acusação de que era subversivo, que defendia o não pagamento de impostos, que iria destruir o templo e que dizia ser rei, rivalizando assim com César. Por quê? ® A atitude de Jesus não foi exatamente pacífica. O episódio está nos Evangelhos. "Numa visita ao Templo de Jerusalém, o coração religioso da Judeia, Jesus expulsa os vendedores de animais e comerciantes instalados nos arredores. "Não faças da casa de meu Pai um mercado!" (Mt 21:12, 13)
Não foi um simples "rapa" nos camelôs. Os comerciantes faziam parte da estrutura de arrecadação do Templo. Os animais eram vendidos a preços exorbitantes. Os cambistas trocavam moedas que os visitantes traziam pela única aceita pelo Templo, o "shekel". Esse dinheiro junto com os impostos cobrados de todos os judeus adultos, faziam do Templo mais do que uma igreja. Na prática era o Banco Central da Judeia, empregando em torno de 18000 homens, que administravam e guardavam imensa fortuna. Esta situação contrariava tudo o que Jesus pregava: igualdade, fraternidade, caridade, etc.
Jerusalém festejava a Páscoa (aniversário da fuga do Egito liderada por Moisés, 1400 anos antes). O Templo recebia entre 200 e 300 mil visitantes de toda a Judeia. Jesus é preso e a acusação (falsa) é de que dissera que destruiria o Templo e o condenaram à morte. Mas o direito de aplicar a pena de morte era exclusividade dos romanos. Diante disso, os chefes religiosos entregaram Jesus ao poder romano.
Os líderes judeus pediam a condenação de Jesus e sua execução. Pilatos, no entanto, não vê crime nos atos de Jesus. Ao saber que Jesus era da Galiléia, enviou-o a Herodes Antipas, judeu, governante distrital (tetrarca) da Galiléia, que era inimigo de Pilatos. Herodes, que era uma pessoa devassa e cruel (Estudo Perspicaz das Escrituras), apenas zombou de Jesus, pedindo-lhe que fizesse milagres, o que não ocorreu. Revestindo Jesus de uma túnica branca, envia-o de volta a Pilatos.
Desejava Pilatos livrar Jesus, pois o julgava inocente. Interroga-o novamente, porém nada encontra para condená-lo e oferece Barrabás, um criminoso, para ser crucificado em seu lugar. O povo pede que soltem o bandido.
Diante da situação incontrolável, Pilatos mandou levar Jesus a um pátio e entregou-o a uma companhia de soldados que o submeteram a terríveis flagelos,
Quem eram os líderes judeus:
"Os "chefes dos sacerdotes" e os "escribas", com freqüência acompanhados dos "anciãos", formam uma tríade sempre ao encalço de Jesus. Quem são essas figuras? O sumo sacerdote, no período da ocupação romana, era nomeado pelo governador, que o escolhia entre as famílias judias dominantes. Caifás, então, era o Sumo Sacerdote, genro de Anás, cuja influência aparentemente ainda se fazia sentir. Os "chefes dos sacerdotes", segundo o padre Raymond Brown (vide bibliografia), eram provavelmente antigos sumos sacerdotes, ao lado de preeminentes membros de famílias entre as quais sumos sacerdotes recentes haviam sido recrutados, e algumas pessoas a quem tinham sido confiadas especiais missões sacerdotais. Os "anciãos" seriam patriarcas das famílias mais ricas e distintas, e os escribas, pessoas que se destacavam pela "inteligência e cultura", entre as quais se encontrariam os "fariseus". Grosso modo, esses três grupos constituiriam o Sinédrio, que no total contava 71 membros." (Revista "Veja"- 04/95)
Caifás: José Caifás era sumo sacerdote durante o ministério terrestre de Jesus. (Lu 3:2). Era genro do sumo sacerdote Anás, seu antecessor. (Jo 18:13). Caifás era saduceu. (At 5:17).
Caifás era líder de um complô para eliminar Jesus. Profetizou que Jesus morreria em breve pela nação, e empenhou-se de todo o coração neste sentido. (Jo 11:49-53: 18:12-14). No julgamento de Jesus perante o Sinédrio, Caifás rasgou a roupa e disse: "Ele blasfemou!" (Mt 26:65), referindo-se ao fato de Jesus reivindicar a dignidade divina. Quando Jesus estava perante Pilatos, Caifás estava sem dúvida presente, clamando: "Para a estaca com ele! Para a estaca com ele! (Jo 19:6, 11); ele foi um dos que pediram que Barrabás fosse liberto, ao invés de Jesus (Mt 27:20, 21; Mr 15:11); estava ali, bradando: "Não temos rei senão César" (Jo 19:15); também estava protestando contra o letreiro afixado sobra a cabeça de Jesus: "O Rei dos Judeus" (Jo 19:21).
Anás: Designado sumo sacerdote por volta de 6 ou 7 EC por Quirino, governador romano da Síria até cerca de 15 EC. (Lu 2:2). Anás era, por conseguinte, sumo sacerdote quando Jesus, aos 12 anos deixou admirados os instrutores rabínicos no templo. (Lu 2:42-49). Quando Jesus foi preso, ele foi primeiro levado a Anás, para interrogatório, e então levado a Caifás, para julgamento. (Jo 18:13). O nome de Anás encabeça a lista dos principais oponentes dos apóstolos de Jesus Cristo. (At 4:6).
Anás era um homem rico, e uma de suas principais fontes de renda era a venda de sacrifícios no templo. Por este fato, tinha razões para matar Jesus, que por duas vezes purificou o templo, que eles tinham transformado num "covil de salteadores". (Jo 2:13-16; Mt 21:12, 13; Mr 11:15-17; Lu 19:45, 46). Um motivo adicional para o ódio que Anás tinha a Jesus e seus apóstolos, era o ensino sobre a ressurreição, cuja prova era a ressurreição de Lázaro, porque sendo Anás saduceu ele não cria na ressurreição. ("Estudo Perspicaz das Escrituras")
b) Os romanos: Pilatos, como um líder romano, era também responsável pela segurança do império. Ocorriam constantes rebeliões, que desgastavam a tropa. Roma, representada por Pôncio Pilatos, na região da Judeia, governava em conluio com as elites locais. Assim, tanto os sacerdotes (liderados por Caifás, o supremo sacerdote) quanto Herodes (judeu), governante distrital da Galiléia (designado pelo senado romano) podiam coletar impostos para si, desde que mantivessem o povo satisfeito com os romanos e dessem ao César parte da arrecadação. A corrupção é um mal muito antigo.
Diante deste quadro, Pilatos não poderia negar um pedido dos judeus (matar Jesus). Não importava se inocente ou culpado. Seu dever era evitar atritos com os líderes religiosos, garantindo o fluxo de impostos para si e para o império.
Por quê Pôncio Pilatos aparece na Bíblia preocupado em defender a inocência de Jesus? Na verdade, o que estava em jogo era a absolvição de Pilatos, afirma o historiador Edgar Leite, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
c) O povo judeu: A Bíblia narra que Pilatos propõe que os judeus escolham em soltar Jesus ou um bandido, Barrabás. A multidão escolhe o fora-da-lei. Diante disso, qualquer leitor é levado a aceitar o povo judeu como responsável pela morte de Jesus. Conforme diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp, este fato é inverossímil. "Não existe nenhum outro caso conhecido em que um procurador romano fosse ouvir o que a população achava. Ainda mais se esse povo nem romano era". O que se tem como certo é a participação ativa da elite judaica, representada pelas autoridades locais e os sacerdotes, tendo à frente o sumo sacerdote Caifás.
Por quê condenar o povo Judeu?
O anti-semitismo é muito mais antigo que o cristianismo. A nação judaica foi construída através de longos e difíceis sacrifícios. Israel, cuja capital é Jerusalém, se encontra no Oriente Próximo, Ásia. Idioma: hebraico e o árabe. Israel é um país resultante da partilha da antiga Palestina (Jerusalém estava dividida até 1967 entre Israel e a Jordânia). Israel mantém constantes atritos com seus vizinhos árabes.
Falar sobre o povo judeu é um interessante tema para uma próxima oportunidade.
As acusações contra o povo judeu, que se espalham pelo mundo ao longo dos tempos, num nefando processo chamado anti-semitismo, por motivos que não importam no presente trabalho, teria como um dos fatores o nome de Judas. O nome "Judas" estaria etimologicamente ligado a "judeu". Seu gosto pelo dinheiro (30 moedas) foi generalizado para todo um povo. Santo Agostinho disse: "... enquanto Pedro representa a igreja, Judas representa os judeus..."
d) Jesus: A possibilidade de Jesus ter provocado sua morte não pode ser descartada. A investida violenta contra os vendilhões do templo deu inicio a grande revolta entre os participantes, bem como atingiu frontalmente as lideranças políticas e religiosas, envolvidas com a negociata. A sua presença era um perigo constante. Além do mais, João Batista tinha sido executado por Herodes, na Galiléia, por motivos banais. Jesus, com certeza, tinha consciência do perigo que corria. No entanto, sua morte traria grande impacto em prol da causa que sustentava. Isto não quer dizer que Jesus premeditou este desfecho.
III - O julgamento
Todo julgamento, em princípio, deve seguir uma máxima do direito que diz: "Não há culpa sem prova e nem crime sem cominação legal". De acordo com a análise dos atos praticados por Jesus, verificamos que ocorreram duas atitudes consideradas graves pelas autoridades judaicas, passíveis de punição: a primeira foi a expulsão dos "camelôs" do Templo e a segunda a acusação de blasfêmia por se declarar filho de Deus.
A expulsão dos mercadores do Templo, à luz da moral, não constitui uma falta grave, pelo contrário, visou preservar o respeito à casa de Deus. O fato de Jesus se dizer filho de Deus não é uma blasfêmia, pois Abraão e os demais patriarcas e profetas consideravam Deus como o supremo Senhor e, conforme diz a Bíblia, Deus afirmava ser os judeus o seu povo eleito, e Jesus era Judeu.
Disto se conclui que:
A condenação de Jesus foi uma farsa perpetrada com o objetivo de acobertar os atos imorais que vinham sendo praticados pela elite judaica (sacerdotes liderados por Anás, Caifás, escribas e anciãos) mancomunados com autoridades romanas, dentre as quais destacamos Pilatos e Herodes (que era judeu).
IV - A condenação
Por qual motivo Jesus foi condenado?
Jesus foi submetido a dois julgamentos: judeu e romano. O julgamento judeu teria sido uma investigação preliminar, não um julgamento. Outros afirmam que coube aos romanos apenas executar uma sentença judia. Segundo diálogo que João presenciou entre Pilatos (que não encontrava razões legais ou morais para condenar Jesus) e as autoridades judaicas, Pilatos diz: "Tomai-o vós mesmos e o julgai conforme a vossa lei". Os judeus responderam: "Não nos é permitido condenar ninguém à morte." Percebe-se através desse diálogo que a intenção das autoridades judaicas era matar Jesus e não simplesmente puni-lo. Surgiu, então, um problema de competência entre a justiça romana e a judaica. Pilatos diante do impasse, entregou Jesus aos soldados para que o castigassem e, em seguida, Jesus foi levado para ser crucificado.
Conclusão
Podemos agora, ao final desta análise, declinar nomes de supostos culpados pela morte de Jesus, sob o meu humilde ponto de vista, embora apoiado em fontes duvidosas, o que deixa um enorme campo para discussões.
Questionamento do Petrick:
1. De quem é a culpa pela crucificação: do povo ou de Pilatos?
Povo: Conforme constatamos através de documentos e relatos que chegaram até nós, o povo judeu aguardava, com ansiedade, um líder que os tirasse da condição de penúria e sofrimento em que viviam, cujos culpados eram os líderes judeus. O povo, em razão de sua humildade e miséria, não tinha expressão nenhuma que sensibilizasse as autoridades romanas, a ponto de contrariar um desejo de Pilatos (libertação de Jesus). Por outro lado, é impossível aceitar que um povo se manifeste contra um homem, que era judeu, e se empenhava em ajudar os pobres, enfermos e oprimidos, a ponto de pedir sua crucificação.
Pilatos: Pilatos teve uma participação muito grande na condenação de Jesus. Por quê?
Pilatos realmente não encontrava culpa em Jesus, porque Ele não havia cometido nada que violasse os princípios da lei vigente naquela época. (vide o princípio legal: "... não há culpa sem prova e nem crime sem cominação legal ...". No entanto, Pilatos não podia assumir sozinho a condenação e a transferiu para as autoridades judaicas: "Levai-O e aplicai a vossa lei". Este comportamento, aparentemente correto e justo, estava encoberto por dois importante motivos:
a) Era do interesse de Pilatos que Jesus fosse eliminado porque a sua presença atrapalhava a "negociata" do Templo (vide letra "a");
b) O povo judaico não aceitava o jugo romano e, portanto, ocorriam várias rebeliões contra as tropas romanas. Em razão disso, Pilatos não poderia contrariar as autoridades judaicas que pediam a morte de Jesus, para não provocar um descontentamento. Na verdade, Pilatos, lavando as mãos, salvou-se a si mesmo.
Pilatos, pela seu comportamento, a meu ver, seria enquadrado como co-autor da morte de Jesus.
2. Os soldados que crucificaram Jesus, embora cumprindo ordens, têm parcela de culpa?
Não têm culpa pela condenação, mas sim pela execução, levando-se em conta a necessidade de consumar o ato em razão de sua condição profissional. Vejamos em "O Livro dos Espíritos", Capítulo VI, item IV - Assassínio.
Questão 746: O assassínio é um crime aos olhos de Deus?
Sim, um grande crime, pois aquele que tira a vida de um semelhante interrompe uma vida de expiação ou de missão, e nisso está o mal.
Questão 747: Há sempre no assassínio o mesmo grau de culpabilidade?
Já o dissemos: Deus é justo e julga mais a intenção do que o fato.
Questão 749: O homem é culpado pelos assassínios que comete na guerra?
Não, quando é constrangido pela força; mas é responsável pelas crueldades que comete. Assim, também o seu sentimento de humanidade será levado em conta.
Devemos entender que "cada um tem o que merece, de acordo com suas obras" e o que conta nesses casos é a intenção de cada um.
3. Todos os que colaboraram para a sua condenação serão perdoados?
Perdoados por Deus ou pelos homens? Por Deus, com certeza. Pelos homens, não sei.
Cada um receberá o que merecer, de acordo com o seu grau de comprometimento. De uma coisa temos certeza, Deus é amor e não abandona ninguém. Todos alcançaremos, um dia, após vencermos nossas imperfeições, a condição de Espíritos Puros.
4. Até onde teria chegado o império de Jesus se não tivesse sido morto? Teria se tornado um grande rei ou imperador?
Acredito que a morte e a ressurreição de Jesus foram necessárias, pelos seguintes motivos:
a) Jesus revelou à humanidade o amor (Segunda Revelação).Portanto, as armas que Jesus utilizou para derrotar seus inimigos eram a paz, a solidariedade, a fraternidade, virtudes desconhecidas e ignoradas na época, cujo lema era: "Quem com ferro fere será ferido". Jamais Jesus derrotaria as grandes potências e impérios, constituídos de pessoas ainda no estágio da barbárie, com demonstração de amor e fraternidade.
b) A morte e a ressurreição de Jesus tornou-o um líder carismático e revelou que Deus existe e que a vida não se resume só ao plano material. A Doutrina Espírita nos revela a grandeza da obra de Deus e nos apresenta a maravilha de sua criação, da qual, felizmente, fazemos parte.
Se Jesus não tivesse sido morto, com certeza teria sido o maior rei ou imperador de todos os tempos, embora a humanidade fosse imperfeita. A sua gestão, embora divina, não faria milagres, pois milagre não existe.
Com isso concluo esse humilde trabalho que acrescentou muito à minha significativa ignorância, o que me leva a agradecer ao Petrick pela oportunidade que me ofereceu.
Bibliografia:
1. Revista "Veja" - 04/95;
2. Revista "Época" - 04/02;
3. "A Morte do Messias" - Padre Raymond Brown;
4. "Quem Matou Jesus" - John Domuinic Crossan;
5. "O Julgamento e a Morte de Jesus" - Hainn Cohn.
6. "Bíblia de Jerusalém", Paulus Editora.
7. "Estudo Perspicaz das Escrituras", Soc.Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1992.

Anízio Fernandes de Moraes – Centro Espírita Ismael – 05/ago/2004.
(Fonte: CEISMAEL)

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Artigo: O Espírita e o Mundo Atual

O Espírita e o Mundo Atual
A Terra está passando por um período crítico de crescimento. Nosso pequenino mundo, fechado em concepções mesquinhas e acanhados limites, amadurece para o infinito. Suas fronteiras se abrem em todas as direções. Estamos às vésperas de uma Nova Terra e um Novo Céu, segundo as expressões do Apocalipse. O Espiritismo veio para ajudar a Terra nessa transição.

Procuremos, pois, compreender a nossa responsabilidade de espíritas, em todos os setores da vida contemporânea. Não somos espíritas por acaso, nem porque precisamos do auxílio dos Espíritos para a solução dos nossos problemas
terrenos. Somos espíritas porque assumimos na vida espiritual graves responsabilidades para esta hora do mundo. Ajudemo-nos a nós mesmos, ampliando a nossa compreensão do sentido e da natureza do Espiritismo, de sua importante missão na Terra. E ajudemos o Espiritismo a cumpri-la.

O mundo atual está cheio de problemas e conflitos. O crescimento da população, o desenvolvimento econômico, o progresso cientifico, o aprimoramento técnico, e a profunda modificação das concepções da vida e do homem, colocam-nos diante de uma situação de assustadora instabilidade. As velhas religiões sentem-se abaladas até o mais fundo dos seus alicerces. Ameaçam ruir, ao impacto do avanço cientifico e da propagação do ceticismo. Descrentes dos velhos dogmas, os homens se voltam para a febre dos instintos, numa inútil tentativa de regressar à irresponsabilidade animal.

O espírita não escapa a essa explosão do instinto. Mas o Espiritismo não é uma velha religião nem uma concepção superada. É uma doutrina nova, que apareceu precisamente para alicerçar o futuro. Suas bases não são dogmáticas, mas cientificas, experimentais. Sua estrutura não é teológica, mas filosófica, apoiada na lógica mais rigorosa. Sua finalidade religiosa não se define pelas promessas e as ameaças da Teologia, mas pela consciência da liberdade humana e da responsabilidade espiritual de cada indivíduo, sujeita ao controle natural da lei de causa e efeito. O espírita não tem o direito de tremer e apavorar-se, nem de fugir aos seus deveres e entregar-se aos instintos. Seu dever é um só: lutar
pela implantação do Reino de Deus na Terra.

Mas como lutar? Este livrinho procurou indicar, aos espíritas, várias maneiras de proceder nas circunstâncias da vida e em face dos múltiplos problemas da hora presente. Não se trata de oferecer um manual, com regras uniformes e rígidas, mas de apresentar o esboço de um roteiro, com base na experiência pessoal dos autores e na inspiração dos Espíritos que os auxiliaram a escrever estas páginas. A luta do espírita é incessante. As suas frentes de batalha começam no seu próprio íntimo e vão até os extremos limites do mundo exterior. Mas o espírita não está só, pois conta com o auxílio constante dos Espíritos do Senhor, que presidem à propagação e ao desenvolvimento do Espiritismo na Terra.

A maioria dos espíritas chegaram ao Espiritismo tangidos pela dor, pelo sofrimento físico ou moral, pela angústia de problemas e situações insolúveis. Mas, uma vez integrados na Doutrina, não podem e não devem continuar com as preocupações pessoais que motivaram a sua transformação conceptual. O Espiritismo lhes abriu a mente para uma compreensão inteiramente nova da realidade. É necessário que todos os espíritas procurem alimentar cada vez mais essa nova compreensão da vida e do mundo, através do estudo e da meditação. É necessário também que aprendam a usar a poderosa arma da prece, tão desmoralizada pelo automatismo habitual a que as religiões formalistas a relegaram.

A prece é a mais poderosa arma de que o espírita dispõe, como ensinou Kardec, como o proclamou Léon Denis e como o acentuou Miguel Vives. A prece verdadeira, brotada do íntimo, como a fonte límpida brota das entranhas da terra, é de um poder não calculado pelo homem. O espírita deve utilizar-se constantemente da prece. Ela lhe acalmará o coração inquieto e aclarará os caminhos do mundo. A própria ciência materialista está hoje provando o poder do pensamento e a sua capacidade de transmissão ao infinito. O pensamento empregado na prece leva
ainda a carga emotiva dos mais puros e profundos sentimentos. O espírita já não pode duvidar do poder da prece, pregado pelo Espiritismo. Quando alguns “mestres” ocultistas ou espíritas desavisados chamarem a prece de muleta, o
espírita convicto deve lembrar que o Cristo também a usava e também a ensinou. Abençoada muleta é essa, que o próprio Mestre dos Mestres não jogou à margem do caminho, em sua luminosa passagem pela Terra!

O espírita sabe que a morte não existe, que a dor não é uma vingança dos deuses ou um castigo de Deus, mas uma força de equilíbrio e uma lei de educação, como explicou Léon Denis. Sabe que a vida terrena é apenas um período de provas e expiações, em que o espírito imortal se aprimora, com vistas à vida verdadeira, que é a espiritual. Os problemas angustiantes do mundo atual não podem perturbá-lo. Ele está amparado, não numa fortaleza perecível, mas na segurança dinâmica da compreensão, do apercebimento constante da realidade viva que o rodeia e de que ele mesmo é parte integrante. As mudanças incessantes das coisas, que nos revelam a instabilidade do mundo, já não podem assustar o espírita, que conhece a lei de evolução. Como pode ele inquietar-se ou angustiar-se, diante do mundo atual?

O Espiritismo lhe ensina e demonstra que este mundo em que agora nos encontramos, longe de nos ameaçar com morte e destruição, acena-nos com ressurreição e vida nova. O espírita tem de enfrentar o mundo atual com a confiança que o Espiritismo lhe dá, essa confiança racional em Deus e nas suas leis admiráveis, que regem as constelações atômicas no seio da matéria e as constelações astrais no seio do infinito. O espírita não teme, porque conhece o processo da vida, em seus múltiplos aspectos, e sabe que o mal é um fenômeno relativo, que caracteriza os mundos inferiores. Sobre a sua cabeça rodam
diariamente os mundos superiores, que o esperam na distância e que os próprios materialistas hoje procuram atingir com os seus foguetes e as suas sondas
espaciais. Não são, portanto, mundos utópicos, ilusórios, mas realidades concretas do Universo visível.

Confiante em Deus, inteligência suprema do Universo e causa primária de todas as coisas, – poder supremo e indefinível, a que as religiões dogmáticas deram a aparência errônea da própria criatura humana, – o espírita não tem o que temer, desde que procure seguir os princípios sublimes da sua Doutrina. Deus é amor, escreveu o apóstolo João. Deus é a fonte do Bem e da Beleza, como afirmava Platão. Deus é aquela necessidade lógica a que se referia Descartes, que não podemos tirar do Universo sem que o Universo se desfaça. O espírita sabe que não tem apenas crenças, pois possui conhecimentos. E quem conhece não teme, pois só o desconhecido nos apavora.

O mundo atual é o campo de batalha do espírita. Mas é também a sua oficina, aquela oficina em que ele forja um mundo novo. Dia a dia ele deve bater a bigorna do futuro. A cada dia que passa, um pouco do trabalho estará feito. O espírita é o construtor do seu próprio futuro do mundo. Se o espírita recuar, se temer, se vacilar, pode comprometer a grande obra. Nada lhe deve perturbar o trabalho, na turbulenta mas promissora oficina do mundo atual.

Em resumo:
O espírita é o consciente construtor de uma nova forma de vida humana na Terra e de vida espiritual no Espaço; sua responsabilidade é proporcional ao seu conhecimento da realidade, que a Nova Revelação lhe deu; seu dever de enfrentar as dificuldades atuais, e transformá-las em novas oportunidades de progresso, não pode ser esquecido um momento sequer; espíritas, cumpramos o nosso dever!

Autor: José Herculano Pires
Inspirado por: Miguel Vives
Livro Tesouro dos Espíritas
Fonte: Espirito.org.br

terça-feira, 29 de maio de 2018

Artigo: Mocidade que não estuda: caduca (Fala Meu!)


Mocidade que não estuda: caduca
Autor: Joelson Pessoa

Mocidade espírita é a reunião de jovens no centro espírita constituída para estudar o Espiritismo.

E qual é a necessidade de uma reunião dedicada exclusivamente aos jovens?

Uma delas é permitir a inclusão da juventude na casa espírita, uma vez que a maior parte das atividades doutrinárias é oferecida ao público nos dias úteis, à noite, horário em que a maioria dos jovens estão estudando. Por essa razão as reuniões de mocidade acontecem aos finais de semana, com algumas exceções.
Outras razões são a linguagem e o nível de experiências comuns que os identificam, permitindo uma afinidade com o grupo, favorecendo a convivência e a troca de ideias numa comunicação horizontal (de igual para igual); A configuração da mocidade desmassifica o indivíduo porque reconhece o seu valor pessoal. Tal característica de reunião satisfaria inclusive aos apelos íntimos dos próprios homens maduros, conforme observamos em experiências com os mais velhos, mas o adolescente, exigente, não continuará no grupo se não se identificar com ele. Exceto se os pais ainda o obriguem.
Todavia, se não houver no grupo, mas, sobretudo naquele que orienta o grupo de jovens um propósito sério de estudar a doutrina espírita, esta reunião descambará para uma ordinária rodinha de amigos, não muito diferente do coleguismo que se forma entre a turma do futebol, da balada, da academia, do happy-hour, etc.
Reuniões de jovens descomprometidas com o estudo da doutrina espírita, que se divertem muito e estudam pouco, apareceram numa reportagem da revista Isto É (edição 2016  Jun/ 08), falando em nome das mocidades espíritas do Brasil, defendendo o aborto (31%), a pena de morte (47%). Qual é o preparo dos dirigentes que orientam estes jovens?
Neste caso o participante está indo à mocidade para paquerar, ver amigos, se divertir ou porque ainda não dispõe de atividades mais interessantes para fazer. Não há o interesse em aprender com o estudo.
Que a pesquisa da revista seja fidedigna, não há como afirmar, mas não podemos negar que existam grupos negligenciando o seu dever (isto também vale para o centro espírita num todo).
Mas alguém poderá indagar:

Em que a mocidade espírita deve se diferenciar?

1.      No estudo do Espiritismo, fundamentando todo e qualquer assunto nas obras de Kardec e, em muitos casos, aprofundando o estudo de um tema particular com o auxílio das obras mediúnicas reconhecidas. (Emmanuel, André Luiz [médiuns Chico Xavier / Waldo Vieira], Joanna de Angelis, Manuel Philomeno de Miranda [médium Divaldo P. Franco], Hammed [médium Francisco do Espírito Santo Neto], Ermance Dufaux [médium Wanderley S. Oliveira], Luis Sergio [médium Irene Pacheco] sem esquecermo-nos dos autores espíritas consagrados: Léon Denis, Ernesto Bozzano, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, Herculano Pires).
2.      No método de estudo, que deve ser ora dinâmico, ora sensibilizadora, ora reflexivo, ora lúdico, ora expositivo, ora interativo, ora focado no individuo, ora no coletivo, de acordo com o aprendizado que se quer fixar… A postura de mestre que fala o tempo inteiro, supondo preencher espaços vazios, é antipedagógica. Há que se desenvolver a habilidade de estabelecer conexões entre a teoria dos livros e a intimidade em cada membro do grupo. Para isso o educador precisa aprender a gostar de escutar o seu aprendiz.
3.      Nos laços de afeto que sustentam a amizade fraterna, tornando a reunião de estudos espíritas entre os jovens, um ambiente incomparavelmente agradável, permitindo a cada participante oportunidade de ser como realmente é, e aceitar, valorizando cada amigo como ele está. Confiança e Afeto alicerçados num projeto de estudo voltado para o crescimento grupal, sem descuidar das necessidades particulares de cada coração ali presente. Há afetividade em seu grupo?

Por isso insistimos na importância de um estudo de qualidade nas mocidades, para que estas não se extraviem dos seus objetivos. A arte, geralmente através da música ou do teatro têm acrescentado bastante em muitas casas espíritas, mas não devem nunca substituir os aprendizados que o bom estudo em grupo propicia. Portanto, a primeira prioridade da reunião de jovens deve ser o estudo, da por diante qualquer outra tarefa poderá ser muito positiva, desde que se harmonize com a primeira.
A interação entre os participantes da mocidade com o centro espírita num todo deve ser incentivada permanentemente pelo dirigente do grupo. A verdade é que, embora a reunião de jovens seja a mais adequada para certa faixa etária, há muito a aprender com as palestras públicas e outras atividades que a casa ofereça como os cursos básicos, por exemplo.
Falando em curso básico, lembramos que a reunião de mocidade não deve, a rigor, comparar-se a um curso de espiritismo.
Um curso satisfaz àquele que tem vivo interesse em aprofundar-se no tríplice aspecto da doutrina espírita (Filosofia – Ciência – Moral), o que não se dá com a esmagadora maioria dos jovens, já absorvidos com os intensos estudos do colégio / cursinho / faculdade / idiomas / informática, etc.
Além disso, o seu centro de interesses, frequentemente relacionado à sua formação profissional, namoro e diversão não lhe predispõe ao interesse de muitos assuntos espíritas, contidos nos cursos tradicionais, porque não estão tão próximos do seu dia-a-dia.
Por não ter esta visão pedagógica, muitas reuniões de jovens são conduzidas como um curso sistematizado, num sistema vertical, aluno / professor. Evasão e marasmo são as consequências indesejáveis que castigam o grupo.
Como fazer então? É preciso que o dirigente, este sim, tenha um bom conhecimento da doutrina espírita, que ele participe de outra atividade no centro e que se relacione com a diretoria. O bom conhecedor da codificação precisa aprender também a identificar as prioridades do universo juvenil e dedicar-se a opinar temas preferenciais na extensa literatura espírita a fim de corresponder às necessidades e expectativas mais emergentes do grupo que coordena.
Para isso não basta que o coordenador apenas tenha as informações espíritas na memória, é indispensável que goste de gente, que se interesse pelos problemas humanos.
Que adiantaria a um médico saber muito sobre remédios se não pudesse reconhecer no seu paciente a presença desta ou daquela doença? O bom médico sabe relacionar cada medicamento com o gênero de enfermidade e, ainda, adota um procedimento para o tratamento.
Nas reuniões de estudos espíritas não deve ser diferente, o dirigente da reunião (educador) precisa conhecer tanto de doutrina como sobre o ser humano, e conhecermos melhor o outro na medida em que conhecemos a nós próprios.
Falamos muito sobre o autoconhecimento, mas quais atividades aplicamos para promovê-lo? Insistimos demasiadamente na recomendação da reforma íntima, mas como a contextualizamos?
Deixemos o improviso para uma ocasião emergencial. Todo estudo precisa ser responsável e carinhosamente elaborado. Cada rapaz e cada moa reunidos em nosso grupo merecem o melhor estudo, aplicado com a melhor atividade. O centro espírita e a reputação do Espiritismo sofrem com as aulas que fazemos nas coxas, porque improvisando, não atenderemos à finalidade maior da doutrina espírita que é a de melhorar o homem, para que a humanidade (nós), atingindo a sua (nossa) maturidade moral, desencadeie a tão esperada renovação social.
A reunião de jovens no centro espírita constitui uma prestação de serviços inestimáveis  sociedade; ainda que alguns não assumam a designação de espírita, o importante é que levem consigo os conceitos essenciais da doutrina e os valores cristãos; com esta base moral poderão fazer a sua escolha ante as provas da vida: entre ser uma pessoa comum, materialista, ou um jovem de bem, comprometido com a sua melhora.

Fala MEU! Edição 65, ano 2008