terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Livro em estudo: Nos Bastidores da Obsessão - A025 – Cap. 9 – Reencontro com o passado – Terceira Parte


Livro em estudo: Nos Bastidores da Obsessão – Editora FEB - 1970
Autor: Espírito Manoel Philomeno de Miranda, psicografia de Divaldo Pereira Franco

A025 – Cap. 9 – Reencontro com o passado – Terceira Parte

 
(Para a última parte deste capítulo, no leprosário, o benfeitor Glaucus produz o adormecimento magnético de Ana Maria. Desdobrada, a paciente revela-se como a antiga Henriette, afeto de Dr. Teofratus dos tempos da Inquisição. Nesta parte, ela conta um pouco da história de ambos...)
 
Henriette-Marie fitou-o, então, com olhar de suprema angústia, através do qual grossas lágrimas rolavam incessantes. Atendida pelos fluídos benéficos do irmão Glaucus, cujo tórax parecia uma estrela refulgente em claridades cambiantes e diáfanas, que envolviam a sofredora, ofegante, como se desejasse aproveitar-se do instante que se lhe apresentava único, para derramar o fel retido no coração, explicoü:
— Passaram-se tantos séculos já e parece-me que tudo aconteceu ainda ontem... Quando me informaram que havias sido condenado pela Inquisição ao pão da dor e à água da agonia, compreendi que passarias àJustiça infame que governava, arbitrária, caminhando para a fogueira. Tentei ver-te, sem o conseguir nunca. Não te pude dizer do amor que me estrugia nalma e dos sonhos de ventura que acalentara para fruir ao teu lado. Quando me anunciaram o teu suplício em praça pública e a tua morte, refugiei-me nas sombras do Convento, buscando o esquecimento e o abandono de tudo. A imaginação dos teus suplícios, amado, atormentava-me, roubando-me demoradamente a paz, e conduzindo-me à loucura em processo de longo curso. Mas não fugi ao cruel destino, que nos perseguiu implacável.
Ignoras, talvez, que o infame que presidiu ao processo em que foste envolvido, fê-lo por felonia... Só mais tarde eu o soube. Disse-me ele mesmo através da boca do confessionário, quando me quis roubar a honra e apossar-se de mim, que lhe parecera presa fácil aos caprichos de um homem devasso, fazendo-me serva das suas paixões. Sabendo do nosso amor — pois que eu lho narrara através de confissão auricular anterior — dominou temporàriamente a paixão, e sem que o soubesse, eu mesma lhe forneci as bases processuais, quando lhe narrei as incursões que fazias no reino dos mortos e as práticas a que te dedicavas. Pedia, então, conselhos ao nefando traidor... E ele tudo fez para afastar-te do meu caminho, acreditando, lobo que era, na possibilidade de devorar a ovelha...
Profundo suspiro se lhe escapou dos lábios, como se todos os sentidos, tensos desde há muito, relaxando-se agora, se fossem despedaçando. Ansiosa por libertarse das hórridas recordações, prosseguiu:
— Acreditando na fé espúria que ele ensinava e dizia viver, ouvi-lhe todas as justificações, deixando-me crer que, embora perdendo a vida, entrarias no Reino de Deus, graças à intervenção dos atos litúrgicos “post—mortem”, que se prontificou a celebrar em intenção da tua alma. Não se passara o triste outono da tragédia e relatou-me a sua furiosa paixão por mim, dizendo-me ter sido eu o móvel de toda a desgraça que o levara a assassinar-te em nome da fé e da religião... O ódio surdo que se apossou de mim foi superior a tudo que possas imaginar. Investida nos hábitos da Ordem a que me recolhera, fi-lo acreditar que me submeteria aos seus caprichos e, quando visitada pela sua infame pessoa, servi-lhe vinho ao qual adicionara violento veneno. Após ingerido, constatei os sintomas que começavam a fulminar a víbora. Segura da sua destruição, contei-lhe, então, enquanto se retorcia na dor, o meu desprezo e o meu horror. Vencida pela loucura, libei, ali mesmo, alta dose do vinho envenenado e sucumbi, de imediato, sem nunca morrer...
«Desgraçada de mim. Reencontrei-o logo, esperando-me...
“O que me aconteceu, desde então, não posso relatar. São sucessões de noites em que viajo ao inferno mil vezes e retorno, ora vencida por forças satânicas, dentre as quais ele se destaca, vezes outras possuída pela vermina que me vence até o olvido, para recomeçar tudo outra vez, incessantemente, doloridamente...
«Agora, amado, agora eu o sinto na sua ronda vingadora e o vejo devorando-me por dentro — eu que o odeio sem remorso —, enquanto a doença me destrói por fora. Encontrando-te, porém, tudo me parece tão diverso, que esqueceria o vil criminoso que nos destruiu a ambos e até o perdoaria, se não te apartasses de mim. Ouve-me, ......
— Ouço-te e providenciarei para que não sofras mais e para que venhas imediatamente para onde me encontro. Não te deixarei e velarei à tua porta até o momento que logo virá para a nossa ventura, vencidos os últimos óbices que nos separam — esses frágeis laços de carne e sangue.
Embora semi fulminado pela narração, espumejante de ódio e furibundo, o Dr. Teofrastus já denotava os sinais do milagre do amor. A voz repassada de sofrimento indefinível, com que Henriette-Marie relatou o complexo drama em que se vira envolvida, deixava no verdugo de muitos o desejo imenso de minorar-lhe a longa e intérmina dor, suportada por tantas décadas através do passar dos tempos.
— Henriette-Marie — informou o Mago de Ruão —, embora ignorasse todo o teu sofrer, como lenitivo quero que saibas que aqueles que nos desgraçaram experimentaram nas minhas mãos o látego da justiça. Fiz-me rei de domínios em que o horror exerce predominância sobre a piedade e em que a vingança é a lei de toda hora... Ferido, retornei aos sítios da nossa infelicidade e busquei-te. Não te logrei achar. Ignorava que fugiste pelo mais cruel caminho: o do suicídio, em cujo curso não tenho meios de interferir, já que o suicida se depara com outras construções da justiça. A minha mão alcançou o Bispo de... e outros asseclas seus, longe, porém, eu estava de supor que o causador de tudo fora o teu confessor, o mórbido criminoso que se disfarçava com as sandálias da humildade para ocultar o celerado que sempre foi. Buscá-lo-emos, porém. Dir-me-ás onde se encontra, e nós dois faremos justiça.
Nesse momento, o irmão Glaucus, interferindo no diálogo dos dois Espíritos que se reencontravam após tão longa separação, elucidou:
— Não esqueçais de que só o amor pode resolver o problema do ódio. Vindes vos arrastando pela senda do tempo, descendo à animalidade inferior, consumidos pelo desespero. Quando parareis? A queda não tem patamar inferior: sempre se pode baixar mais... Também o planalto da redenção: sempre se pode ascender na direção da Vida até à glorificação imortal. Olvidai aqueles que vos maceraram e considerai a oportunidade do amor, que ora defrontais. É certo que vos separam os elos do corpo. Para quem ama, porém, não há verdadeiramnente separação.
Intervindo, o Dr. Teofrastus arremeteu:
— Não há como aceitar impositivos de amor. Para a nossa felicidade só a destruição dos inimigos...
— Enganais-vos! — retrucou, o Instrutor. — Não há destruição nem aniquilamento de vidas ou de Espíritos. Qualquer tentame nesse sentido somente alongará indefinidamente o vosso martírio. O ensaio de desforço separar-vos-á e a loucura da suposição, quanto à desencarnação de Ana Maria, não passa de ingenuidade, que acalentais sem exame minudente e lógico. Não somos os arquitetos da Vida. Assim, pois, não temos o direito nem podemos interferir no seu curso, que obedece a planificação superior que vos escapa. Ouvi-me: o algoz a quem odiais é, também, vossa vítima. Infeliz, espera oportunidade de perdão, para igualmente perdoar. O fel sorvido incessantennente desespera-o e, vencido pela própria insânia, desde há muito perdeu a faculdade de discernir.
Escravo do ódio é vítima dele mesmo, tendo-se feito catarina por vontade própria.
Feri-lo mais é arrematada loucura. Já não sofre; perdeu a faculdade de experimentar a dor. Obedece a impulsos mecânicos do condicionamento demorado a que se jungiu. Ajudá-lo é ajudar-vos; socorrê-lo com a piedade significa libertarvos.
Embora estivesse disposto ao duelo verbal, o doutor Teofrastus denotava cansaço, e o reencontro, com Henriette-Marie, de certo modo conseguira feri-lo, ensejando- lhe novas concepções sobre as Leis Divinas.
O irmão Glaucus, nesse momento, adornado de luzes como veneranda figura ressurgida em madrugada de imortalidade, tomando os dois seres qual se fora o genitor de ambos, disse:
— Reencontrar-nos-emos outras vezes. Desdobram-se-nos perspectivas para o amanhã. Agora se nos impõe a momentânea separação. Ana Maria deve reassumir os deveres do ressarcimento a que se  encontra vinculada, e vós, amigo, necessitais pensar. O tempo ser-vos-á conselheiro. Despeçamo-nos, e reconduzamos a nossa querida amiga aos seus compromissos humanos, que não podemos interditar nem modificar.
O Dr. Teofrastus tentou reagir, insistir. Diante, porém, do Benfeitor, cujo olhar penetrava-o docemente, o atormentado juiz e vingador baixou os olhos e silenciou.
Foram ministrados passes no obsessor de Ana Maria que se encontrava ao lado e providenciada sua remoção dali. O Dr. Teofrastus despediu-se, sendo antes informado da possibilidade de novo encontro em dia previamente assinalado, quando voltaríamos ao Lazareto. Reconduzidos ao veículo que nos esperava à porta da casa, retornamos ao Templo de orações, e, após comovida prece, fomos reconduzidos ao lar.
Um amanhecer em tons róseos e azuis vencia a Natureza em sombras, anunciando o novo dia.
 
QUESTÕES PARA ESTUDO
 
1 – No início do diálogo entre Henriette, Dr. Teofratus e benfeitor Glaucus, ela narra como Dr. Teofratus foi levado à fogueira e o que aconteceu com ela depois... Que fatos foram estes?
 
2 – Henriette, como podemos observar, desencarnou por consequência do suicídio. Na sua fala, ela comenta dois resultados comuns para quem comete este ato. Quais são eles?
 
3 – Por que o benfeitor Glaucus se opôs aos projetos de Dr. Teofratus quanto ao que pretendia fazer com Henriette: precipitar-lhe a desencarnação e sair à procura dos aparentes algozes de seus sofrimentos?
 
Bom estudo a todos!!
Equipe Manoel Philomeno

Nenhum comentário:

Postar um comentário