segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Você é um empreendedor social?

Você é um empreendedor social?

setembro/2016 - Por Cristiane Maria Lenzi Beira 
          
A normose predominante nos dias atuais relaciona-se a comportamentos hedonistas, imediatistas, consumistas ou, num palavra, individualistas. A figura do eu nunca foi tão evidenciada como hoje. Os interesses pessoais suplantam, sem peso na consciência, pelo menos para a maioria das pessoas, o bem-estar coletivo e até a sobrevivência da Humanidade, que depende do planeta. Basta observarmos o risco que a natureza corre, justamente porque vem sendo explorada segundo interesses desmensurados e egoístas.
Essa supervalorização do ser humano, que tem levado as pessoas a desconsiderarem ou menosprezarem o bem comum e o meio ambiente, talvez tenha tido início com movimentos como o renascimento, o iluminismo e a revolução francesa. Esses eventos geraram inúmeros benefícios, a ponto de influenciarem positivamente a marcha do progresso social. No entanto, de certa forma, parece que a medida do equilíbrio foi ultrapassada e a importância dada à figura humana excedeu o bom senso. Como consequência dessa liberdade conquistada, conceitos como o de Marx: Deus é o ópio do povo ou de Nietzsche, com seu super-homem, foram disseminados e o ser humano se permitiu ocupar um lugar de destaque na Terra, em detrimento de tudo o mais que existe.
Acontece, no entanto, que, assim como o extremo da desconsideração do valor humano gerou o processo benéfico de reformas e transformação social, quando a situação se tornou quase insuportável, um sentimento semelhante parece estar desabrochando hoje em dia, no coração das pessoas, estimulando-as, igualmente, a buscarem uma revolução.
Parece, dessa forma, que as consequências da supervalorização do ser humano, sem devida consideração dos recursos naturais e da vida em sociedade, atingiu um estado tão crítico, que uma nova consciência começa a despertar. Observamos o número crescente de Organizações Não Governamentais e outras iniciativas particulares em favor do resgate e da promoção da saúde, do equilíbrio ambiental e da paz social. São pessoas que se unem em favor da melhoria da vida, da pacificação da sociedade, da recuperação do meio ambiente, entre outras iniciativas. Estes são os chamados empreendedores sociais.
Essa nova onda de consciência busca a reintegração entre ser humano, sociedade e planeta, reestabelecendo, também, a religiosidade ou transcendência no íntimo da alma humana. No livro Normose, os autores afirmam, a respeito desse despertar da consciência, que:
O Ser humano introduziu no planeta nova qualidade evolutiva, que é a evolução intencional, consciente, voluntária…. Uma pessoa evolui se quiser, se desejar, à medida que enveredar num caminho de individuação.1
Joanna de Ângelis, com relação ao processo de individuação, ressalta que: A individuação é um convite severo ao ser humano, que deve aprofundar reflexões em torno da sua existência como ser realque é construtor das próprias realizações e que responde pelas consequências mórbidas da conduta irregular.2
Dessa forma, é somente a partir do esforço de cada um para se tornar indivíduo  que realmente criaremos condições para o resgate da relação equilibrada entre o ser humano, a sociedade e a natureza.
Ao passar pela individuação, o ser humano se sente autor da própria história e responsável pela vida que deseja ter, aceitando sua participação no universo coletivo e se responsabilizando pela construção do mundo melhor.
Os exemplos de seres humanos que fazem parte desse grupo que está despertando da normose, e se colocando como instrumento para uma evolução intencional, consciente e voluntária, aumenta a cada dia. São exemplos de vida maravilhosos e emocionantes, além de nos servirem de modelo de conduta, como o caso de:
Leigh Anne Tuohy, que viu sua história de vida ser interpretada por Sandra Bullock, no filme Um sonho possível (2009), que narra o episódio em que Leigh adotou Michael Oher, um jovem em situação de abandono. Michael se tornou, depois, um jogador de futebol americano bastante reconhecido. A respeito de sua atitude, Leigh afirmou que: ós apenas permitimos que Michael se tornasse a pessoa que ele deveria se tornar… E a verdade é que há Michaels em todos os lugares, e o que eles necessitam é apenas de uma chance. 3
Hannah Brencher, que lidou com um episódio de depressão, ao se mudar de uma cidade pacata no interior dos Estados Unidos da América, para New York, escrevendo cartas de amor fraternal e deixando-as em pontos da cidade: bancos de praças, bibliotecas, lanchonetes, etc. O efeito de seu gesto foi tão impactante que hoje Hannah conta com a participação de milhares de pessoas ao redor do mundo num projeto virtual que estimula a troca de cartas de amor. A respeito de sua iniciativa, ela afirma: Our mission is simple: make love famous.4
A linda frase de Antoine de Saint-Exupéry também nos convida a esse despertar da consciência frente à nossa atuação no contexto socioambiental: Ser homem é precisamente ser responsável. É sentir vergonha diante da miséria, mesmo quando ela não parece ter qualquer relação com você. É ter orgulho de uma vitória dos companheiros. É sentir, ao colocar a sua pedra, que você está contribuindo para construir o mundo. 5
Observamos, assim, que o mais importante, ao colocarmos nossa pedra, não é seu tamanho, nem tampouco o impacto que ela provocará, mas em especial, o fato de estarmos envolvidos e engajados na construção do mundo onde desejamos viver, vencendo o individualismo, praticando o autoamor, mas igualmente envolvendo-nos com o bem comum. Essa é a conduta do verdadeiro empreendedor social, entendedor de que, mais importante que a obra que executa, é a postura que assume perante si mesmo, perante a sociedade e também diante da natureza.
Allan Kardec nos adverte quanto ao fato de que precisamos uns dos outros e que a vida em sociedade é mecanismo utilizado pelas Leis Divinas para promover a evolução espiritual: os homens foram feitos para viver em sociedade e não insulados… No insulamento, ele [o homem] se embrutece e estiola6.
Mas apenas conviver não basta. É preciso que a consciência do ser humano seja despertada a fim de que ele se proponha, também, a participar da sociedade com responsabilidade, colaborando para a transformação social, oferecendo seus talentos em prol do bem comum. Para identificarmos esses dons, no entanto, as pessoas devem, conforme propõe Santo Agostinho, buscar o autoconhecimento7.
Ser empreendedor social, portanto, é começar investindo em si mesmo, no processo de individuação, para ser uma pessoa melhor, que influencia positivamente o ambiente em que vive. É estar em conexão com seu mundo íntimo, com o meio e também com Deus, procurando oferecer à Vida e à sociedade, a melhor versão de si mesmo.
 
Bibliografia:
1. LELOUP, Jean-Ives; WEIL, Pierre; CREMA, Roberto. Normose. p. 37.
2. FRANCO, Divaldo Pereira. Triunfo pessoal. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL. p. 69.
4. Nossa missão é simples: tornar o amor famoso.
5. SAINT-EXUPÉRY, Antoine. Felicidade, amor e amizade: A sabedoria na obra de Antoine Saint-Exupéry. Rio de Janeiro: Sextante. p. 47.
6. KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB. item 768.
7. ______. Op. cit. item 919.
 
(Fonte: Jornal Mundo Espírita - FEP)

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